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O sonho da Sultana

Um dia (isso foi há muito tempo), conversei com um amigo sobre feminismo. Nós tínhamos ideias parecidas. Não gostava nem dessa palavra. Pesada, parecia querer impor algo à sociedade. Uma tentativa de gerar medo e incitar o ódio, criando confusão desnecessária. Resumindo, um termo quase ofensivo. Será?

Brinco que esse é o ponto chave para a transformação. É quando você chega a uma determinada conclusão ao longo da experiência da observação, que fazemos mesmo quando não sabemos que fazemos, sobre como algo reflete nas pessoas a sua volta. E então, dessa conclusão, você a toma como uma verdade para si mesmo.

E se tratando de relações humanas, dificilmente um pensamento que chega a uma conclusão fácil, comoda, que acabe com qualquer questionamento, significa que estamos no caminho certo.

Abandonar padrões, digamos obsoletos, de pensamento ainda é a principal causa de ódio entre nós. E não é pra menos, contestar tudo aquilo que você acredita se colocando no lugar do outro, muda a forma como você vê a vida. Não é uma tarefa fácil, muito menos prazerosa. Mas liberta. Humaniza.

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O sonho da Sultana é um conto de ficção científica feminista, escrito pela muçulmana Roquia Sakhawat Hussain, feminista e ativista dos direitos das mulheres. Publicado em 1905, veja só. A tradução do conto é uma iniciativa do projeto Universo Desconstruído, esse mesmo que está pensando. Participei da coletânea de estréia do projeto. Aline e Sybylla o traduziram e editaram, e transformaram num ebook disponibilizado gratuitamente.

No conto, Roquia brinca com a inversão de papéis entre homens e mulheres. Através de um sonho ela descobre um mundo incrível, com tecnologia, utilização dos recursos do meio ambiente de forma extremamente inteligente, educação para mulheres, mas, ainda longe de ser perfeito.

Ao que parece, O sonho da Sultana foi o primeiro conto de ficção científica feminista. Quando terminei a leitura, minha mente voou longe. Fiquei me perguntando o grau de instrução de Roquia, e a imaginava escrevendo este pequeno conto às escondidas, após o marido sair de casa, ou a permitir se entreter rabiscando papéis.

Ela teve o que por enquanto chamamos de sorte. Veio de uma família que pertencia a alta sociedade. Teve educação desde pequena, que lhe proporcionou ferramentas para enxergar o mundo como realmente é, e assim, poder questioná-lo.

Há mais sobre ela na biografia que faz parte do ebook. Que alias, percebe-se que foi organizado com muito cuidado e carinho. O interessante do Universo Desconstruído são essas doses homeopáticas que querem justamente mexer um pouquinho com cada um de nós. Gerar discussão e reflexão através de uma forma de entretenimento. O que eu acredito que seja também o princípio da boa educação.


Corre lá pra baixar o e-book, é grátis.