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Reabilitação – Em busca de um mundo [sem] internet – Dias 4-5

Nada nunca é o que parece

Acordei ouvindo gritos. Uma forte dor no estomago se transformou em um enjoo e tive que correr para o banheiro pra vomitar. Mais sons de gritos abafados, portas batendo e minha cabeça rodando. Quando finalmente levanto do chão me olho no espelho e vejo hematomas em meu rosto, pelo jeito em processo de cicatrização, o que significa que faz algum tempo que me machuquei.

Os barulhos cessaram.

Logo uma enfermeira bate na porta do quarto e vai entrando. Se apresentou como Doria e tinha uma voz doce e tranquila. Calmamente pediu que eu sentasse na cama e sem que eu dissesse uma palavra ela começou a dar explicações.
Veio saber como eu estava, disse que eu poderia sair do quarto para passear assim que me sentisse melhor. Me mostrou um panfleto com várias atividades que a clínica oferecia. Falou sobre cada uma delas, as regras, e ao final contou sobre o dia da “lobotomia”.
De acordo com a enfermeira, cai da escada quando descia para o refeitório e machuquei muito o rosto e a cabeça. Fiquei no pronto socorro da clinica, ontem, em observação.

A minha vontade era surrar a Doria. Desde que cheguei fui drogada e apaguei por vários dias, não me alimentei direito e agora estou machucada e passando mal. Mas pensando bem, a essa hora eu provavelmente estaria sentada de frente para o computador ao invés de viver uma aventura como essa. Já estava prestes a pegar meu iPhone pra twittar sobre isso, quando lembrei do óbvio. Doria viu quando tentei pegar o celular imaginário no bolso traseiro da minha calça e riu. Maldita.

Parabéns querida, esse é seu 5° dia conosco, sem emails, redes sociais, ou dias de ócio enfrente ao computador. – Disse ela.

Então a idiota se retirou. Assim que fiquei sozinha reparei que estava cheia de picadas nos braços, talvez fosse do soro e algum outro medicamento. Encontrei a mala que meus pais fizeram com as minhas roupas e alguns cosméticos. Vesti qualquer coisa, amarrei o cabelo, coloquei os óculos e desci atrás das atividades do panfleto. Mas voltei para trás, tinha esquecido de tomar um banho e escovar os dentes, o que é outro ponto positivo desta aventura, porque eu nunca tinha a chance em casa, graças a internet. Agora sim, vamos lá.

Cheguei no pátio, o qual me apresentaram rapidamente no 1° dia. Perto da escada tinha um quadro gigante com o desenho de um notebook e alguns gadgets pingando sangue, ao lado de um cabo de rede picotado. A moldura era toda trabalhada em detalhes, e parecia ser de ouro.

Havia varias mesas e poltronas confortáveis por todo o lugar, algumas estantes com livros e uns filmes que poderíamos assistir na cinemateca. Resolvi folhear uns livros, ia buscar um café mas eles só serviam chá de camomila e suco de maracujá, mas todas as bebidas tinham uma cor meio turva. Cigarro então, nem pensar.

Peguei um livro, as páginas estavam em branco, devolvi na estante e escolhi outro. A mesma coisa aconteceu, descobri que eram apenas capas, sem conteúdo. Comecei a observar as pessoas, a maioria lendo, caminhando, alguns voltando da corrida e outros até flertando timidamente. Nós somos um grupo misto.
Entre tantas pessoas, algumas se destacavam, andavam como zumbis babando e se arrastando pelos cantos do pátio e árvores no gramado.

Eram poucos, uns 3 garotos e uma menina, que logo foram retirados do local por alguns enfermeiros que os seguravam rindo e sorrindo forçadamente para os demais, como se não fosse nada demais aquilo.

Notei naquele instante que alguns médicos nos observavam de uma salinha ao lado da cinemateca. Um deles parecia irritado e fez sinal para um enfermeiro do lado de fora, que foi em minha direção. Fiquei sem reação, não sabia o que fazer, quando o outro enfermeiro, aquele que me avisou da lobotomia imaginária, apareceu.
Segurou gentilmente minha cintura e me mostrou o livro que estava lendo, completamente em branco, mas apontava para as “palavras” e sorria para mim. Chegou mais perto, ele tinha um perfume tão bom, e sussurrou: Finja que está lendo ou vai se transformar em coisa pior que aqueles zumbis…

Continuação da crônica na página Strange Times.