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Reabilitação – Em busca de um mundo [sem] internet – Dias 6-7 FIM

O Amor

Passei a tarde com o enfermeiro, sentada no gramado fingindo ter uma conversa irreal sobre as histórias que não existiam naqueles livros em branco, e tomando o famoso suco de maracujá com cor de água suja que a clinica oferecia, até que era bom. Aproveitei para conhecê-lo melhor, descobri que seu nome era Pablo.

Falava tranquilamente, virando algumas paginas do livro até que apareceram um monte de anotações, então me explicou o que estava acontecendo. Isso foi o que ele disse:

Eles estão usando vocês como cobaias. Somente alguns enfermeiros tem permissão para acompanharem os pacientes na operação, alias, poucos sabem disso. Nas minhas investigações encontrei muitos cadernos, livros, planilhas e documentos, como não posso usar meu Smartphone, anotei o mais importante nesse livro em branco. O que pude compreender é que eles estão tratando vocês como se fossem viciados em drogas, de acordo com as pesquisas a quantidade de dopamina liberada com o uso da internet é o mesmo de drogas pesadas, causando uma dependência equivalente e mexe com todo o sistema límbico que controla as emoções, por isso a abstinência enlouquece muita gente, causando até sintomas físicos. E fica pior, encontrei fotos dessa clinica com data de 1890, era um hospício aqui. Eles faziam estudos com pacientes desde essa época e descobriram uma forma de lobotomia que consiste em fazer uma incisão em uma determinada parte do sistema límbico, controlando o desejo desenfreado que nos leva ao vicio, diminuindo as doses de dopamina liberadas, e tornando as pessoas menos emotivas e controladas. Mas, como você viu, alguns não tiveram sorte e viraram vegetais, outros foram considerados curados, e nós, bom, nós somos diferentes.

Nós? eu perguntei, me lembrando em seguida de que ele também tinha sido capturado e virado cobaia, provavelmente porque sabia demais. Então ele segurou as minhas mãos frias e acabou dizendo:

Pessoas com tdah (transtorno déficit de atenção e hiperatividade) resistiram ao tratamento. Apesar de vários estudos sobre a disfunção no lóbulo pré frontal, comprometendo a concentração, impulsividade e memória, nós temos o hiperfoco. É quando o cérebro basicamente dá tudo de si, trabalhando em 110%. Os cientistas descobriram que quando “ativamos” o hiperfoco algo mais acontece, como regeneração do tecido cerebral. Por isso o tratamento não funciona. Provavelmente eles não monitoram as atividades cerebrais de ninguém, nem mesmo fizeram tomografias, então, enquanto você fingir que joga com as regras deles jamais irão desconfiar.

Ficamos alguns minutos calados nos olhando. Pablo sabia que eu precisava de um tempo para absorver aquelas informações. Passamos horas conversando e caminhando. Ele ainda tinha muito mais para contar, parte da lobotomia era fazer uma espécie de lavagem cerebral, causando ilusões de ótica, algo bem complexo que nem mesmo Pablo sabia explicar precisamente, mas dava para entender como os outros liam os livros em branco, era como um teste, nos induzindo a ver e acreditar naquilo que eles quisessem. Durante toda a conversa eu me perguntava como ele descobriu tudo, como sabia tanto? Algo ainda me perturbava. Então resolvi perguntar logo de uma vez.

– Eu sou um investigador policial disfarçado, nem deveria estar falando com você, mas eu não conseguia deixar de te notar, eu, bom…eu acho que estou…

Aparentemente os enfermeiros perceberam que agíamos estranho, ou talvez fosse porque Pablo não largava o tal livro e dava impressão de ter realmente algo escrito ali, ou descobriram o disfarce dele. Só sei que ele vieram correndo em nossa direção, o primeiro que se aproximou veio direto pra cima de mim, mas Pablo me defendeu e se atracou com ele, dois gigantes lutando. Ele não teve muita dificuldade em derrubar o enfermeiro, e logo vieram outros, eu abaixei para pegar o livro do chão, Pablo segurou minha mão e saímos correndo para a área de caminhada que levava a um portão largo de metal. Liberdade?

O portão era alto demais, ele me fez pular primeiro, subi no seu ombro e me agarrei ao portão. Quando estava chegando no topo senti uma corrente elétrica invadindo meu corpo, uma dor alucinante. Pablo gritava muito nome, me segurando em seus braços, mas eu estava quase inconsciente, fui jogada a vários metros do portão. Lembro de ter visto ele me deitando no chão, depois entrou em um arbusto e voltou com uma arma e um celular bem antigo nas mãos. Atirou em alguma máquina ao lado do portão, de repente escuto gritos, mais enfermeiros chegando, e mais tiros, então eu apaguei.

Não sei quanto tempo estive apagada, mas acordei na cama de um hospital. Não, eu gritei, não. Arranquei uma seringa que estava presa ao meu braço, me levantei e fui correndo em direção a porta. Mas então ouvi a voz dele, e sua mão tocou meu ombro.

– Está tudo bem, conseguimos sair da clinica, chamei reforços. Você está salva aqui.

Pablo estava com a cabeça enfaixada, um olho roxo, e um braço quebrado. Ainda sim estava lindo. Começamos a namorar uma semana depois, logo que o escândalo da clinica foi parar em todos os jornais e os responsáveis presos. As famílias foram indenizadas, principalmente dos pacientes que viraram zumbis, mas nenhum dinheiro no mundo poderia reverter aquela situação.

Hoje Pablo me pediu em casamento, como um bom detetive acho que ele já suspeitava do meu sim. Como ele é um investigador está sempre em alguma missão, geralmente precisa se ausentar por muitos dias, em alguns casos semanas. Mas combinamos que nos falaríamos todos os dias pela internet.

FIM

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