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O duplo susto

silhouette-series-4_2254266Amanda levantou rápido da cama morrendo de sede. O silicone imitando uma pele rosada pendurado na porta do armário. Com sono, desceu as escadas tropeçando e foi para a cozinha. Abriu a geladeira e a primeira coisa que tocou foi em uma caixa de leite. Encheu o copo de leite gelado mesmo. Tinha aprendido a gostar disso.

– Já vou pra cama, mãe. Só vou terminar esse leite – respondeu sonolenta para o vulto em frente a porta de vidro que dava para o quintal.

Ajeitou a calcinha e se jogou na cadeira da cozinha de olhos fechados. Abriu os olhos, atônita, cuspindo um pouco de leite e se engasgando com o que travou na garganta. Não ia olhar. Não deveria. Permaneceu um longo tempo tossindo, evitando olhar para a porta de vidro. Estava semi nua, segurando o copo e com o corpo coberto de leite. Leite que respingou em todos os seus olhos. Alguns se fecharem e como se tivessem sido sugados pra dentro, sumiram. Pensou na sua mãe, será que ela viu? Ela está dormindo? Qual foi a ultima coisa que disse pra ela? Trabalhei o dia todo, quase não conversamos. E nem vi o tempo passar. O tempo. Lembrou da época que se mudou.

Respirou fundo. Tinha medo até de piscar e o vulto, que continuava imóvel pelo que conseguiu perceber com o olho mais próximo, se mexesse. O vulto, concentre-se no vulto. Um ar gelado tomou conta da cozinha, e ela ficou arrepiada. Foi o arrepio nas duas espinhas mais longo de sua vida.

Ainda sem olhar diretamente, mas mantendo os olhos atentos ao ambiente, Amanda levantou bem devagar e pegou um pano de prato para se limpar. Movia-se como um robô enguiçado.

Continuou caminhando com movimentos friamente calculados até a ultima cadeira, de frente para a porta de vidro. De frente para o vulto, forte e extremamente alto pelo que conseguiu sentir com o canto dos olhos. Pensou que talvez ele fosse mais alto que a porta e desejou que ele tivesse a estatura de Tyrion Lannister.

Um humano macho. Negro, alto e forte. Agora pálido como o leite de Amanda. Ele olhava tremendo e sem reação para a criatura azul clara com 7 olhos espalhados pela cabeça e cheio de tufos de cabelo branco onde sobrava espaço. Três seios pequenos a mostra e um umbigo enorme. Só de calcinha. A calcinha que ela tinha ganho de presente dele.

Todos os olhos de Amanda se arregalaram. Os que haviam sumido foram novamente postos em serviço. Ficou aliviada por não ser um ladrão e sorriu. O rapaz, seu vizinho e namorado, entrou num estado de choque tão grande que perdeu os sentidos e desmaiou ali mesmo na cozinha. Amanda checou sua pulsação e viu que estava bem. Encheu novamente o copo de leite e subiu para o quarto, pensando se o amor e a cumplicidade entre os dois era forte o suficiente para superar algumas pequenas mentiras.

Sua carne

wlfmen1Segurou o bebê com firmeza contra o peito peludo. Estava encurralado. Toda a matilha queria matá-lo, estava sendo caçado como um animal, por animais. Se ele largasse a criança talvez conseguisse fugir, talvez o deixassem ir. Talvez. Você largaria seu próprio filho? Ter perdido a mãe foi o bastante para mexer com ele.

Seu faro apurado de lobo sentia a presença dos outros de longe. Podia até distinguir entre eles pelo cheiro. Lambeu sua cria. Ela o olhou com afeto. Uma menininha morena com olhos verdes muito vivos. Seu olhar animal feroz se dissolveu. Estava embrulhadinha na camisa do pai que se rasgou na transformação.

O mais velho da matilha surgiu de um arbusto, pulando agressivamente contra ele. Por instinto tentou virar de costas para protegê-la, dando o braço para o outro lobo abocanhar. A dor lancinante veio acompanhada de uma lembrança, seu tempo estava acabando. Era quase de manhã.

Lobas sanguinárias vieram em seguida, formando um círculo ao seu redor. O bebê era um erro. Um cruzamento amaldiçoado para eles, lobos selvagens. Tinham medo do que viria, medo de uma nova raça. Aquilo que um dia todos aqueles homens e mulheres amaldiçoaram tanto desde que foram mordidos ou gerados de outros lobos hoje era motivo de orgulho. E pra eles a raça deveria continua o mais pura possível. Lobos não cruzam com humanos “puros”, não os amam, no máximo são uma refeição pra eles. O lado animal é o que prevalece.

Segurava sua cria com o braço bom. Seria capaz de matar por ela. Um amor que machucava de tão forte tomou conta de todo seu ser. Era sua unica esperança num mundo solitário. Ela riu pra ele, alheia a tudo que estava acontecendo. Fechou os olhos por alguns segundos, tomando coragem. Pulou por entre as lobas. Uma delas agarrou seu calcanhar e a menina rolou de seu braço. Virou-se para a loba socando seu rosto e a chutou para cima do bando que voava em sua direção. Foi em busca de sua cria, desesperado. Amarrou a camisa com ela dentro, em seu corpo. Correu, correu. Não olhou para trás, apenas correu. Estava quase saindo da mata, podia ver a rodovia. Em alguns minutos sua transformação começaria. Um homem, um pai. Finalmente.

Os outros lobos o seguiram mais um pouco e recuaram, assustados. Viram alguma coisa. Ele não. Mesmo com a adrenalina seus sentidos estavam fracos a essa altura. Mas não deu tempo. Acomodou sua cria ao pé de uma grande árvore. A transformação em homem era a mais sofrida. Era como morrer para renascer humano. Gritava. A menina observava aquele contorcionismo de ossos e pele se reencaixando bruscamente, sem medo algum.

Sons de tiros ecoavam pela mata. Um deles atingiu certeiro seu peito no momento que uivou, agora para o sol. Pelo menos metade da transformação havia acontecido. Uma anomalia, aberração da natureza.

Há muito tempo recebiam denuncias de cães gigantes. Monstros, diziam. Houve casos de ataque a humanos. A polícia resolveu investigar a fundo dessa vez, depois que um colega de trabalho foi encontrado sem as pernas e estomago. Muitas lendas corriam sobre aquela pequena cidade.

O segundo tiro perfurou seu cranio. Respingos voaram no rosto de sua cria. Sua vida. Sua carne.

O outro

O outro

Mantinha firme sua posição, a arma colada na testa do homem. Ele sabia do que ela era capaz e, por um momento preocupou-se. Suava feito um porco, ajoelhado no chão. Era assim que queria que ele ficasse, ela quem estava no comando.

– Você…. – mas a voz não saía. Destravou a arma num pequeno estalo.
– Se puxar o gatilho, estará tudo acabado para os dois, você sabe, no fundo você sabe – Ela sabia – Está mesmo disposta a fazer isso? – respondeu o homem, que agora tinha um olhar diferente, mais vivo, não disfarçando sua excitação.
– Do que você está falando. Meu Deus, tem ideia do que acabou de acontecer?

Ele tinha medo de morrer e também parecia aliviado. Isso a deixava mais alucinada, e a força que fazia para não pressionar o dedo no gatilho aumentava. Estava confusa demais para manter a calma.

O que ela presenciou no quarto era tão repugnante que sentia as entranhas se revirando no estomago sempre que as imagens lhe vinham na memória, ao pedaços, como pequenos fhashes de uma câmera. O marido nu na cama, jogando-se sobre ela bruscamente, segurando sua boca para que não gritasse. O choro ele já estava acostumado e gostava, lambia todas as lagrimas do seu rosto depois. Mas odiava quando ela pedia parar, não podia sequer ouvir sua voz. No fim ele tinha quase o mesmo sorriso que aquele homem na cozinha. Satisfação.

O marido se levantou e a puxou da cama pelos cabelos, jogando-a no chão. Gritou de dor. Ele resolveu que estava zangado por ela o ter encarado o tempo todo com um olhar de julgamento, com o olho bom, aquele que não estava totalmente fechado pelo inchaço do ultimo soco. Começou a chutá-la com toda a força, segurou seu pescoço e, tirando-a do chão, deu um soco no nariz fazendo sua cabeça bater violentamente contra o chão novamente.

A partir dai tudo ficava confuso. Eram cenas cortadas, reviradas, sem conexão.

Acordou da pancada com gritos, mas não eram dela. Agora o marido estava jogado no chão à sua frente, segurando o toco que antes era sua mão esquerda. Também tinha sido baleado no ombro. Um homem, aquele homem, atirou e depois o amarrou na cama. Com uma faca de cozinha o homem cortou a genitália, ela viu que era sua faca preferida para cortar bifes grossos. O marido ainda acordado para assistir sua mutilação, entorpecido.

Ela fechou os olhos tentando inutilmente desvencilhar-se daquela imagem e compreender como chegou naquele momento. Alias, quando a arma veio parar na sua mão?

– Não pare agora – disse o homem – Está chegando perto. Ainda com a arma na mira dos seus miolos.

Percebeu que já era noite. Quando se é abusada com frequência você passa a não existir. Você aprende a desaparecer, levar sua mente para outro lugar, qualquer lugar. Como quando você vai fazer algum exame e o medico diz pra olhar algum ponto na sala e focar nele. Ela gostava de olhar o sol. Enquanto o marido lhe sufocava com as mãos ela buscava algum pontinho de sol dentro do quarto. Viu pela fresta da porta, era dia.

Depois o marido gostava de beber, beber e relaxar lendo o jornal na cama. Ela tinha sempre que estar pronta pra levar seu drink. As vezes pensava em colocar alguma droga na bebida, dopá-lo. Um dia planejava fazer isso, mas precisava de tempo. 3 anos ainda não eram o suficiente.

Lembrou de ver sangue escorrendo da cama, muito sangue. Poças de sangue, lençóis de sangue. E eu sobrevivi a isso, porque? Uma perna até a altura da coxa escorregou da cama, descolada do resto do corpo. Ficou pendurada na ponta da cama e só não caiu por estar amarrada à corda pelo tornozelo. Pelo menos assim, em pedacinhos, o covarde não teria como voltar.

Pedaços? Mas…

– O que foi que você fez?
– Eu libertei você. Nós. O homem se levantou, estavam frente a frente, poucos centímetros de distância. Ainda apontava a arma em sua direção. Ambos se olhavam em silencio, e ficaram assim por mais um tempo, o tempo suficiente.

Ele sentiu o cano gelado da arma em sua testa, ela também. Ela tinha as mãos e roupas cobertas de sangue do seu carrasco mutilado no andar de cima.
– O que foi que eu fiz?

Finalmente ela pressionou o dedo no gatilho, ciente da resposta. Nos segundos que antecederam o tiro ela pôde ver seu reflexo em uma bandeja de prata, segurando a arma apontada para sua própria cabeça.

 

 

 

A Megera


Mateus conhece Olivia, ou como gosta de chamá-la carinhosamente a Megera, há pouco mais de 6 anos. Ele está convencido de que Olivia está apaixonada por ele, tanto quanto ele é por ela. Ele sabe que ela não suportaria não vê-lo mais, ele sabe, sabe mesmo?

Aquela mulher era terrível, não passaram de um beijo que ele roubou forçadamente de Olivia, que logo lhe deu um pisão com a ponta do salto e o ameaçou de morte caso tentasse novamente, mas ele percebeu um leve sorriso enquanto ela se retirava. Uma mulher extremamente inteligente, misteriosa e sádica, o que significava sempre. Ele já tentou ignorá-la, pediu a amigos que inventassem que estava morto, que havia viajado para a China, a negócios por um ano. Nada abalava aquela bruta mulher sem coração.

Mateus era fascinado por ela, a amava mais que a si mesmo. Já ela, amava todas outras criaturas do planeta, desde formigas até elefantes, menos Mateus e qualquer outro pobre coitado que se aproximasse dela. Olivia já foi chamada de víbora por um de seus pretendentes, no mesmo dia encontrou Mateus e conversaram sobre isso no café. Chegaram a um consenso de que aquilo era uma infâmia, já que víboras estão sempre a espera de dar o bote, o que era totalmente contrário as atitudes de Olivia. O sofrimento de homens que se desdobravam em vão pela sua atenção parecia incrivelmente divertido e engraçado para ela. Megera lhe caía melhor, sem dúvida, pensava ele.

Mesmo assim Mateus e Olivia eram grandes amigos, nada evitava que se encontrassem acidentalmente, quase todos os dias, em um café da cidade para conversar e compartilhar seu amor pela bebida. No ultimo encontro Mateus parecia tenso, Olivia passou o tempo todo pensando o que estaria deixando tão nervoso, mas nada em sua face mostrava qualquer sinal de preocupação. Pensou em prolongar o encontro com um passeio, mas pedir por companhia não era de seu feitio, além do mais, não daria esse gosto a ele.

Enquanto olhava nos olhos dele sentiu um aperto no peito tão grande que por um momento lhe faltou ar. Seu coração batia forte como nunca, era terrível admitir o que aquele homem significava para ela, tudo. Tudo. Saiu de lá correndo, nervosa e querendo chorar, mas não se permitiria a isso em público. Mateus foi atrás dela, gritando que parasse. Ela ouvia sua voz mas não iria parar. Então ele parou de correr, e de gritar, o silencio foi quebrado com o barulho de buzinas e o corpo de Mateus sendo arremessado em uma árvore do outro lado da rua.

Naquele mesmo dia, quando os médicos entregaram todos os pertences que estavam com Mateus, Olivia viu uma pequena caixinha de veludo preta com uma aliança dentro.

Skye decide morrer

Skye sentou no chão frio do quarto, e assim ficou por horas, braços envolta dos joelhos, imóvel, apenas respirando e tentando encontrar boas razões pra continuar viva. Os médicos a observavam de 30 em 30 minutos, pelo vidro da porta do quarto.

Ela estava condenada, condenada a uma dor dilacerante e insuportável, aquela que poucas pessoas sentem ou sentirão na vida. A dor de não encontrar satisfação e alegria em nada ou em ninguém. A dor de se sentir incapaz de realizar qualquer tarefa que envolva alguma responsabilidade, incapaz de se realizar, incapaz de ser feliz.

Para Skye, a felicidade está em ser útil e desempenhar com perfeição suas funções. Pessoas ao seu redor são meros complementos, não prioridade. Naquele momento pensou em todas as pessoas que conhecia, em como ficariam após a sua morte, e quando percebeu que já tinha cuidado de todas elas, uma lagrima escorreu.

Mas a vida não perde o sentido de uma hora para outra, há a fagulha que acende no peito, trazendo excitação, vontade de mudar ou se arriscar, e mostrando igualmente que existe algo errado. Quando a mudança não é algo possível, ou viável, sentimos a chama se apagar, muitas vezes ignorada. A partir dai algo muda na forma que vemos a vida. Pessoas, roupas, joias ou lugares, todos perdem o sentido. Nos tornamos egoístas porque não conseguimos nos imaginar ao lado de outro ser humano, ninguém nos compreenderia. E pensar na dor dos outros só nos torna ainda mais imprestáveis. Surge um certo sentimento de superioridade, como se os outros fossem tão medíocres, a ponto de não valer a pena interagir ou criar laços. Ela se sentia inútil, com tantos pensamentos que não se encaixam com os de ninguém.

Skye tentou se mexer, mas o quarto era gelado, e as roupas largas do hospital, desproporcionais ao seu tamanho, a faziam sentir mais frio. Continuava enroscada no chão, fechada em seus pensamentos. Entre eles, lembrou do quanto queria aprender uma língua nova, Alemão sempre foi sua paixão. Lembrou que tinha deixado vários livros em casa que gostaria de ler, e tantos outros que queria comprar. Lembrou de um antigo relacionamento, se é que poderia chamar de relacionamento, em uma fase ruim da sua vida, mas quando suas ideias mirabolantes, planos sem sentido ou criatividade para enfrentar problemas eram vistos por ele com admiração. Lembrou de todas as pessoas que a admiravam, sem que ela nem mesmo imaginasse se não tivessem dito. Lembrou das palavras de um amigo: “você definitivamente não se vê como realmente é.”

Isso acendeu algo em Skye, logo um pequeno sorriso despontou de seus lábios. Ela esqueceu o frio e ficou de pé. Já não era mais aquela garota de ombros baixos, agora estava determinada, cabeça erguida. Essa dor insuportável, a incompreensão dela mesma sobre seus sentimentos ainda estavam presentes, isso não é algo que desaparece assim tão fácil. Mas dessa dor ela encontrou uma nova e boa razão para continuar vivendo.

Nesse momento o médico abriu as portas do hospício para Skye e disse:

– Você está pronta para ir, finalmente você entendeu o sentido da vida.