Suicidas, de Raphael Montes

Suicidas, Raphael Montes

Suicidas me deu uma angustia terrível, uma sensação de desesperança, medo, nojo e loucura. Já tá querendo ler, né? Foram mais de 400 páginas lidas em poucas horas com intervalo para uma rápida soneca. E pra mim isso significa que o livro atingiu seu objetivo. Causar incomodo. Era o que eu procurava.

Buscamos sensações, vivenciar experiências por mais doentias que sejam através dos livros. Eu sei como é, não fique sem jeito. Alias, já leu Clive Barker?

Só que há outro incomodo também. Quando uma leitura carrega nos estereótipos.

A história apresenta personagens temperamentais, imaturos e frustrados/entediados. Combinação mortal, literalmente nesse caso. Jovens de classe média que de repente decidem morrer.

O livro explora a relação entre eles e mostra de maneira um pouco superficial, mas não menos interessante, porque tomaram essa decisão. Expondo suas fraquezas e mostrando o quanto são manipuláveis.

Aos poucos descobrimos como tudo aconteceu, ou parte do que houve, através do diário encontrado pela polícia no quarto de Lucas, o protagonista, poucos dias depois dos suicídios e um livro também escrito por ele narrando em tempo real os suicídios e encontrado no porão onde ocorreram as mortes.

Um ano depois a polícia ainda sem respostas e com algumas divergências de informações resolvem reunir as 7 mães dos 8 jovens que se suicidaram. A reunião é liderada pela delegada Diana, que lê cada capitulo escrito por Lucas sobre o dia dos suicídios, que ocorreu numa casa que Zak, melhor amigo de Lucas, e sua família passavam as férias. Cyrille’s House.

A cada capítulo, Diana espera conseguir a cooperação das mães, em meio ao panico e desespero de escutarem a narração dos eventos de Cyrille’s House sobre seus filhos,  para que juntas possam chegar em alguma pista útil do que realmente aconteceu. Já que esse livro nunca tinha sido relevado pela polícia, nem para as mães.

Como Lucas é o único elo que temos com os jovens e suas motivações, percebemos muito da sua personalidade. Não houve nenhuma empatia da minha parte pelos personagens, muito menos Lucas, que busca camuflar seu desvio de caráter com pequenos gestos e falsas boas ações. Embora muita coisa seja compreendida no final.

Entre os jovens temos Ritinha que é, sem meias palavras, a vagabunda que sai com todo mundo, exceto com o garoto que gosta dela. E a todo momento o livro tentar apresentar justificavas para odiá-la e desprezá-la por isso, já que seu comportamento não é dos melhores. Waléria com W está numa categoria um pouco diferente unicamente por estar acima do peso, mas igualmente ridicularizada. Maria João é a garota, que embora descrita com aparência e modos masculinos, sonha em casar com um homem rico e rejeita o protagonista por não ter dinheiro. Ou pelo menos é o que ele acha, mas vai alguém discordar.

Zak, o melhor amigo de Lucas, é um rapaz muito bonito e que se aproveita disso. Também por ser rico qualquer mulher se interessa por ele. Algumas confissões perturbadoras de Zak são levadas com calma, eu diria, por Lucas, que aparentemente é o cdf da turma, sem atrativos físicos e dinheiro, portanto, solteiro. Ele na verdade é uma versão intelectualizada do garotão pegador, Zak. Bom, e algo mais. E continua a afirmar e destacar o quanto as personagens femininas são loucas e desequilibradas, interesseiras e meros corpos em movimento no planeta, o tempo todo. Mesmo diante de situações absurdamente absurdas.

O suicídio é um tema difícil de abordar, achei que a história e as motivações foram bem construídas. Até porque, sempre que ouvimos falar de alguém que tirou a própria vida, tentamos buscar uma resposta que faça sentido pra nós, afim de racionalizar essa loucura, quando na verdade sentimentos são tão instáveis e manipuláveis que não há uma explicação aceitável pra ninguém. Embora não seja tão difícil compreender os motivos que levam alguém a se autodestruir.

Ao final da leitura me peguei pensando em tudo o que aconteceu com aqueles jovens no porão da Cyrille’s House. Eu não me consideraria fan de terror/horror se não apreciasse leituras em que os sentimentos mais extremos ou doentios são explorados. Embora o livro esteja na categoria policial. Nós sabemos muito bem do que somos capazes, generalizando, claro. Não se culpe por ter arrancado as tripas do seu vizinho que gostava de maltratar animais, ele vai entender.

Mas preocupa e incomoda, aquele incomodo ruim que falei no começo, uma leitura que cultiva o ódio por meio de justificativas, ou reforce o próprio pensamento que muitos já tem enraizados. E é tudo tão sutil, tão perfeitamente moldado dentro das histórias que num olhar superficial pelas páginas pode não ser percebido. Mas a mensagem está lá. Mesmo que escrita sem essa intenção. É cansativo.

E ser crítico nesse sentido é muito bom, te torna um chato a partir do momento que você percebe como somos preconceituosos por natureza, mas é bom. Humaniza. Você passa a questionar o própria história, o autor, outras opiniões e olha com mais carinho e respeito para o próximo, de verdade.

Alias, Suicidas aborda outros temas interessantes de forma assustadoramente cruel e realista. Estou num emaranhado de sensações e questionamentos, que há muito me acompanham. Encare apenas como uma conversa entre nós, e tire sempre suas conclusões.

De todo modo foi uma boa leitura, com reviravoltas espantosas e um ritmo que tira o fôlego. Já estou buscando outros livros do autor. Tentei esconder muitos outros segredos e surpresas que te esperam. E eu torço, como sempre torci, para que cada vez mais nos preocupemos com aquilo que passamos através da escrita. Histórias não são e nunca serão apenas uma forma de entretenimento, elas tem o poder de nos instigar, moldar, e também reafirmar ideias que não deveriam nos pertencer mais e alimentar um ciclo em que pessoas são julgadas e odiadas a todo momento enquanto buscam prazer e refúgio nesse lugar tão hostil que vivemos.

Mais:

Outro livro que aborda suicídio (e bullying), e talvez você goste também como eu gostei é Os 13 Porquês

E quem tem skoob, chega chegando.  🙂

 

2 Thoughts on “Suicidas, de Raphael Montes

  1. guria… me assustei com essa aranha que vc colocou aqui! achei q tava mesmo no meu monitor hahaha
    faz tempo q não leio coisas de terror/suspense… lembrei do ‘tarântula’ que você resenhou aqui, muito bom!

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