Sua carne

wlfmen1Segurou o bebê com firmeza contra o peito peludo. Estava encurralado. Toda a matilha queria matá-lo, estava sendo caçado como um animal, por animais. Se ele largasse a criança talvez conseguisse fugir, talvez o deixassem ir. Talvez. Você largaria seu próprio filho? Ter perdido a mãe foi o bastante para mexer com ele.

Seu faro apurado de lobo sentia a presença dos outros de longe. Podia até distinguir entre eles pelo cheiro. Lambeu sua cria. Ela o olhou com afeto. Uma menininha morena com olhos verdes muito vivos. Seu olhar animal feroz se dissolveu. Estava embrulhadinha na camisa do pai que se rasgou na transformação.

O mais velho da matilha surgiu de um arbusto, pulando agressivamente contra ele. Por instinto tentou virar de costas para protegê-la, dando o braço para o outro lobo abocanhar. A dor lancinante veio acompanhada de uma lembrança, seu tempo estava acabando. Era quase de manhã.

Lobas sanguinárias vieram em seguida, formando um círculo ao seu redor. O bebê era um erro. Um cruzamento amaldiçoado para eles, lobos selvagens. Tinham medo do que viria, medo de uma nova raça. Aquilo que um dia todos aqueles homens e mulheres amaldiçoaram tanto desde que foram mordidos ou gerados de outros lobos hoje era motivo de orgulho. E pra eles a raça deveria continua o mais pura possível. Lobos não cruzam com humanos “puros”, não os amam, no máximo são uma refeição pra eles. O lado animal é o que prevalece.

Segurava sua cria com o braço bom. Seria capaz de matar por ela. Um amor que machucava de tão forte tomou conta de todo seu ser. Era sua unica esperança num mundo solitário. Ela riu pra ele, alheia a tudo que estava acontecendo. Fechou os olhos por alguns segundos, tomando coragem. Pulou por entre as lobas. Uma delas agarrou seu calcanhar e a menina rolou de seu braço. Virou-se para a loba socando seu rosto e a chutou para cima do bando que voava em sua direção. Foi em busca de sua cria, desesperado. Amarrou a camisa com ela dentro, em seu corpo. Correu, correu. Não olhou para trás, apenas correu. Estava quase saindo da mata, podia ver a rodovia. Em alguns minutos sua transformação começaria. Um homem, um pai. Finalmente.

Os outros lobos o seguiram mais um pouco e recuaram, assustados. Viram alguma coisa. Ele não. Mesmo com a adrenalina seus sentidos estavam fracos a essa altura. Mas não deu tempo. Acomodou sua cria ao pé de uma grande árvore. A transformação em homem era a mais sofrida. Era como morrer para renascer humano. Gritava. A menina observava aquele contorcionismo de ossos e pele se reencaixando bruscamente, sem medo algum.

Sons de tiros ecoavam pela mata. Um deles atingiu certeiro seu peito no momento que uivou, agora para o sol. Pelo menos metade da transformação havia acontecido. Uma anomalia, aberração da natureza.

Há muito tempo recebiam denuncias de cães gigantes. Monstros, diziam. Houve casos de ataque a humanos. A polícia resolveu investigar a fundo dessa vez, depois que um colega de trabalho foi encontrado sem as pernas e estomago. Muitas lendas corriam sobre aquela pequena cidade.

O segundo tiro perfurou seu cranio. Respingos voaram no rosto de sua cria. Sua vida. Sua carne.

2 Thoughts on “Sua carne

  1. Depois que a gente assiste a uma novela mexicana na vida, fica difícil se acostumar com finais trágicos e certeiros.

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