S de vingança


Imagem: freepik

Sentada na cama, Samira cravava na coxa o garfo de plástico que usou no almoço. As lagrimas que escorriam caiam na perna, misturando-se com o pouco de sangue que começava a sair. Via um certo prazer nisso, era como uma terapia, um modo de exprimir a raiva enquanto pensava em um modo de fugir daquele lugar nojento. Uma dor neutraliza a outra. A dor te deixa acordado, vivo, racional.

Olhava fixamente para o garfo, agora enterrado na coxa. Seus sentidos aguçados. Os cheiros dos remédios e injeções, a roupa branca dos enfermeiros lavados com um sabão em pó vagabundo, provavelmente o mesmo usado na sua roupa. A tinta fresca do seu quarto, escondendo as inscrições com sangue do paciente anterior.

Desejou uma janela. Pequena. Queria sentir um fiozinho de sol entrar naquele cubículo mofado. Desenhou uma usando o sangue ainda quente, fervendo de ódio, que saia da perna. Aproveitou seu novo dote artístico e desenhou até um vasinho com uma flor na janela. Igual nos desenhos animados. Pronto, agora era só fechar os olhos e imaginar o calor invadindo o quarto.

Será que já estava, de fato, enlouquecendo? Se assim fosse, seu marido ficaria ainda mais satisfeito. Sentia nojo ao pensar na palavra “marido”. Aquilo nunca foi um casamento. Desde o início foi tudo planejado por ele. O golpe na ricaça feia, frígida e ingênua. E ela caiu, só não imaginava que a colocaria num hospício.

Despertou daquele transe. Ouviu passos vindo do corredor, era sua chance. Na parede da janela desenhada, Samira deixou encostado no chão uma caixinha de sapato, afirmando que era sua caixa de lembranças, com coisas da sua infância, como algumas fotografias e laços de cabelo, e que a faziam se sentir no mundo real. Claro que a caixa passava por inspeções diárias, sem sucesso. Logo, a deixaram em paz. Mas a caixa tampava um pequeno buraco na parede que ela cavou durante meses. Escondendo várias faca de plástico obtidas em refeições noturnas, que só podiam ser feitas no quarto.

Os passos se aproximavam, era a enfermeira Joana, ótimo. Ela era magra como um graveto e não devia ter mais de 1,60. Esperou pacientemente, com a faca presa na cintura da calça e outra guardada no bolso.

– Samira, você se furou de novo? O que usou, um garfo? Me dê agora.
Assim que Joana se aproximou, Samira puxou a faca da cintura, como se fosse uma peixeira, e enterrou no pescoço da enfermeira, com toda a força, evitando que ela gritasse muito alto. Saiu em disparada para o corredor que estava livre a essa hora da noite. Vestiu um jaleco jogado numa maca, arrumou os cabelos e seguiu firme em direção ao portão de grade. Avistou um grupo de médicos vindo do corredor a sua direita e se dirigindo a porta. Seguiu-os e se infiltrou entre eles, fechando firme o jaleco para esconder o sangue na roupa. Conseguiu passar pela segurança.

Livre, finalmente. A troca de funcionários na clinica tornou tudo mais simples, a maioria eram novos. Agora na rua, não tinha ideia de como chegar em casa, não conhecia aquele bairro. Só pensava no marido torrando seu dinheiro com alguma vagabunda.

Ainda naquela noite, a policia logo chegou na clínica.
– Tem alguma ideia de onde ela possa ter ido? – disse o policial.
– Nenhuma, mas ela é muito perigosa – respondeu a enfermeira, com dificuldade. – Samira cria personagens novos toda a semana. Dessa vez ela acha que era rica e sofreu um golpe do marido, acreditando que foi ele quem a colocou aqui, e não sua família. Desde então ela não pode ver um homem que logo o associa ao marido golpista.

Samira parou numa esquina e avistou um homem alto, de jaqueta preta, segurando a mão de uma moça. Suas feições eram idênticas as de seu marido. É ele, pensou. Não pode ser outra pessoa.

– Você, seu desgraçado – disse em voz alta, empunhando a faquinha de plastico.

 

3 Thoughts on “S de vingança

  1. Flaviane on outubro 15, 2012 at 10:38 am said:

    Hahaha…
    A Samira é virada no giraia isso sim!
    Tá loko meu!
    kkkkkkkkkkk adorei…

  2. Adriano on outubro 18, 2012 at 8:47 pm said:

    vingança não é com S…

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