Red Eye

Red Eye

Clay começou cedo. Quando era criança assistiu o pai matar sua mãe, em uma briga na cozinha enquanto ele lutava para pegar a faca que a mulher cortava os legumes. Bateu a cabeça da esposa na pia tantas vezes que deixou seu cranio amassado e a mandíbula deslocada. Mesmo assim pegou a faca e rasgou a sua garganta.
O pai se jogou no chão percebendo o que tinha acabado de fazer, não se movia, e, se não fosse pela respiração, poderia dizer que estava tão morto quanto a esposa.

E o pequeno Clay assistiu tudo aquilo, de dentro do quarto espiando pela frestinha da porta. Aquele momento foi decisivo e mudou o rumo de sua vida.

25 anos se passaram, e Clay se tornou um homem de 30 anos, porte atlético e feições de um anjo. O que ninguém poderia imaginar é que ele tinha uma fixação por mulheres ruivas, mortas e cobertas com seu próprio sangue, de preferencia. A obsessão veio quando conheceu uma garota ruiva no dia que fugiu do orfanato onde passou o resto da infância e começo da adolescência.
Ela era diferente das outras garotas, para ele, a menina ruiva era especial, assim como achava que a mãe era especial para o seu pai. Foi sua primeira vítima.

A polícia está atrás de Clay há uns 4 anos, Red Eye na verdade, ele adorava esse apelido. É assim que os policiais o chamam. Sempre sorria quando lembrava de ver noticias a respeito dos assassinatos que cometeu, exibidos em todos os noticiários. O melhor era saber que a policia não tinha ideia de quem seria o serial killer por trás das mortes de todas aquelas mulheres. Sentia tanto orgulho daquilo como um homem sente por pertencer a alta classe social.red-eye1

Até que um dia conheceu Anastácia, em um café onde ia sempre. Era a mulher ideal que ele jamais poderia sonhar. Tinha a doçura de sua mãe, as sardas e o tom de cabelo claro avermelhado que lembrava a primeira garota ruiva que conheceu. E nesse momento algo o impediu de matá-la, precisava conservá-la para si. Estava apaixonado. Ela parecia correspondê-lo e não demorou muito para que começasse um relacionamento entre eles.

E com o tempo, um ano e meio precisamente, as mortes pararam e todos esqueceram de Red Eye, ou tentavam não se lembrar dele.

Mas um dia Anastácia precisou viajar a negócios, e Clay decidiu que mataria uma última vez, como um viciado que precisa de uma ultima dose. Pensava nisso há meses. Encontrou sua vítima e a seguiu, na verdade já estava de olho nela a muito tempo, e sabia que era sozinha. Tinha tudo preparado, já de luvas aproximou-se da mulher entrando pelos fundos da casa e a pegou de surpresa. Alguns segundos depois de segurar um lenço úmido em seu rosto ela desmaiou. A mesa da cozinha era grande o suficiente para deitá-la. Prendeu seus braços e pernas na mesa com muita fita adesiva, estava ansioso, queria ser rápido. Mas a falta de prática o deixou desleixado e distraído. Abriu um pedaço da camisa da mulher de forma estúpida, com uma mão apertou a região do colo onde faria o primeiro corte, mas tremia tanto que sem querer passou o faca em sua luva de plástico e se cortou. Alucinado resolveu levá-la para o galpão que alugava e pensar numa forma segura de se livrar dela, ao invés de deixar um corpo como troféu na cena do crime como fazia nos bons tempos.
Mas ele nunca havia cometido um deslize desses, estava assustado, e para piorar lembrou que tinha esquecido as chaves do galpão em casa.
Colocou a mulher no carro e foi para sua casa. Chegando lá procurou pelas chaves em todos os lugares, mas estava ansioso e nervoso demais, não encontrava. Resolveu trazer a vitima e a deixou em um quarto que usava de escritório, depois voltou a cena do crime para se certificar de que não tinha deixado vestígios.red-eye2

Mas quando voltou Anastácia estava em casa. A viagem foi adiada de ultima hora e ela quis fazer uma surpresa para Clay. Estava em pé em frente a porta aberta do escritório, parecia chocada, mas não assutada.

Red Eye? – disse Anastácia.

Ele estava envergonhado por ela ter descoberto dessa maneira, com um deslize dele, mas de certa forma aliviado por poder compartilhar seu segredo com a mulher que amava desesperadamente. No fundo ele queria que ela soubesse, queria mostrar o quão poderoso ele era. O homem que apareceu em todos os noticiários mas ninguém o encontrava. Se sentia praticamente um Deus.

Quando perguntou se seria a próxima ele se sentiu ofendido com o medo dela e explicou que aquela era a última vez. Imediatamente o olhar de Anastácia mudou, ela passou do terror a curiosidade mórbida.

E o que pretende fazer com esta aqui? – disse ela.

Clay não podia acreditar, as palavras mal saiam de sua boca, mas não pode evitar um leve sorriso quando percebeu as intenções de Anastácia. Por fim contou o que tinha acontecido e que teve de interromper o trabalho por causa do corte na mão.

Nesse momento ela resolveu falar um pouco de sua história também, dos sonhos, da excitação que sentia ao pensar que poderia realmente matar alguém e dos vários tratamentos psiquiátricos que foi submetida na adolescência, devido aos seus comentários perturbadores. Conversaram enquanto observavam o corpo da vítima começando a se mexer, estava acordando.

Sem dizer mais nada, Anastácia foi até a cozinha e pegou uma faca. Depois segurou a mão dele e o puxou para dentro do quarto. Então Clay assistiu aquela mulher maravilhosa, perfeita, sua companheira sedenta de sangue retalhar sua primeira vítima que se contorcia e gemia de dor, com gritos abafados pela fita isolante em sua boca.

Com as mãos e o corpo ensanguentados ela agarrou Clay e os dois se beijaram intensamente, como se tivessem selado um pacto naquele instante.
A visão daquele sangue, o cadáver e o olhar de sua futura esposa eram surreais para ele, foi a melhor noite de sua vida. Red Eye voltou, mas não conseguiu deixar de pensar em que apelido os policiais dariam para Anastácia.

 

Aproveitando que é o mês de Serial Killers no desafio literário 2012.

Dedico a Jeane Freitas.

 

 

5 Thoughts on “Red Eye

  1. Muito bom, um verdadeiro conto.
    Parabéns Cah, vc escreve muito bem, talvez se torne uma grande escritora.

    Bjus.

  2. Postei a história! Veja se gosta 😉
    Beijos

  3. Oi Camila, adorei seu conto, fiquei curiosa pra ler assim que vi o conto da Je no blog viés feminino, vim correndo aqui pra ver o seu conto rsrs.
    Beijos

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