O Jogo do Exterminador

Vou começar falando tudo atrapalhado, mas eu chego lá. Ou não.

Odeio heróis. Falo assim, na lata. Talvez a minha criação (sempre vista como uma criaturinha insignificante que não tinha força ou inteligencia pra nada) me fez ver as coisas de um modo diferente. Eu era inferior a todo mundo, e eu me odiava por isso. Cheguei a essa conclusão quando tinha mais ou menos 6 anos. Antes disso eu não tinha ideia do que sentia. E ai eu queria morrer e elaborava planos até que bem inteligentes pra me matar, sem que eu me machucasse muito. Isso é importante.

Ninguém desse planeta sabe disso. Só to contando pra você.

Nunca existiu um mundo mágico com duendes e fadinhas coloridas e simpáticas. Minha felicidade era me imaginar vencendo os torneios do Mortal Kombat e destruindo todas as pessoas que eu achava que não me amavam. Das piores formas possíveis que uma garotinha podia imaginar. Era divertido.

Não confunda com bullying. Crianças atacando outras crianças são o reflexo do que aprenderam com as pessoas que mais gostavam. Geralmente dos pais ou algum parente próximo, mais velho. E é deles que estou falando.

Cheguei aos 15 anos observando as estrelas e chorando livremente. Buscando sentido, significado. Qual, a não ser fazer a minha parte aqui e agora? Tentar ser meu próprio herói.

Quando você precisa lutar para ter o seu lugar de respeito você só tem duas opções. Se fechar e se tornar um tirano amargo e revoltado, um brigão ignorante e incompreendido. Ou aprender o que puder e encontrar formas de provar o seu valor e respeitar as pessoas como você gostaria que tivessem te respeitado. Superar ninguém supera, acho. É acumulativo. Mas como dizem, dificuldade ajuda a moldar o caráter.

313240Foi então que eu me emocionei com a trajetória de Ender. De verdade. Ender Wiggin é o personagem principal do livro O Jogo do Exterminador, de Orson Scott. Uma ficção científica cheia de alfinetadas, principalmente nas questões políticas.

Numa sociedade onde a natalidade é controlada, o máximo permitido eram dois filhos. Ender era o terceiro, ou terceirinho como era ridicularizado pelas outras crianças. As crianças também não vinham ao mundo só por amor dos pais, e sim a partir de acordos assinados entre os pais e a Esquadra Internacional, que permitiam que qualquer uma de suas crianças fosse usada por eles. Recrutavam somente as excepcionais, para ajudar a salvar o mundo da próxima invasão dos Insecta. A Terra já havia sofrido duas invasões alienígenas, com mais uma a caminho.

Ender era a promessa de que a Terra se salvaria. Por ser o terceiro, um fardo, ele tinha mais motivos ainda para provar que valia alguma coisa. Só teve permissão de nascer pra ser usado como ferramenta, na esperança de que superasse seus irmãos. A história toda é muito bem trabalhada no psicológico de Ender, sua irmã Valentine e o obscuro Peter.

Nem Valentine, nem Peter, tinham exatamente o que o governo queria. Ender reunia ambas as qualidades aparentemente necessárias e algo a mais. E percebemos que recrutar um soldado é muito mais do que treinar habilidades em jogos ou gravidade zero. Tudo o que realmente importava era como você poderia lidar com um situação nova e complexa e vencer. Estratégia é tudo. Colaboração e confiança também. Tanto que Ender é colocado no limite durante todo o livro, sem piedade, por alguém que de certa forma o amava. E se mostra o melhor herói que já li.

Ele passou nos testes e entrou para o treinamento aos 6 anos. Me fez pensar o quanto nós sabemos e entendemos do mundo com essa idade. E como é fácil perder a infância e amadurecer mais do que um adulto em certos assuntos. Ao mesmo tempo como somos manipuladores e cruéis, se for da nossa natureza.

Crianças poderiam muito bem dominar o mundo se tivessem esse propósito. A todo momento Orson Scott tem que nos lembrar de que estamos falando de crianças. Chega a ser difícil visualizar isso as vezes.

Transformaram o livro num filme, medo! Acredito que saia ainda este mês aqui. Não tenho grandes expectativas, mas quero muito ver o jogo aterrorizante que Ender jogava nas horas vagas.

O Jogo do Exterminador traz uma reflexão muito profunda sobre nós mesmos e o universo. Sobre força interior e manipulação. E até que ponto temos direito de tentar destruir uma outra forma de vida, por pior que ela seja. Mas por tratarem de crianças e por explorarem tanto a mente delas, é quase impossível não mergulharmos nas nossas próprias lembranças de infância. Boas ou ruins.

Há tanto pra falar sobre a história. Leia se puder, Ender passa por muitas fases ruins, há muita frustração, tristeza e dificuldade, mas ele não decepciona o leitor.

E talvez eu não odeie tanto assim heróis.

Aqui você pode pegar o ebook

O duplo susto

silhouette-series-4_2254266Amanda levantou rápido da cama morrendo de sede. O silicone imitando uma pele rosada pendurado na porta do armário. Com sono, desceu as escadas tropeçando e foi para a cozinha. Abriu a geladeira e a primeira coisa que tocou foi em uma caixa de leite. Encheu o copo de leite gelado mesmo. Tinha aprendido a gostar disso.

– Já vou pra cama, mãe. Só vou terminar esse leite – respondeu sonolenta para o vulto em frente a porta de vidro que dava para o quintal.

Ajeitou a calcinha e se jogou na cadeira da cozinha de olhos fechados. Abriu os olhos, atônita, cuspindo um pouco de leite e se engasgando com o que travou na garganta. Não ia olhar. Não deveria. Permaneceu um longo tempo tossindo, evitando olhar para a porta de vidro. Estava semi nua, segurando o copo e com o corpo coberto de leite. Leite que respingou em todos os seus olhos. Alguns se fecharem e como se tivessem sido sugados pra dentro, sumiram. Pensou na sua mãe, será que ela viu? Ela está dormindo? Qual foi a ultima coisa que disse pra ela? Trabalhei o dia todo, quase não conversamos. E nem vi o tempo passar. O tempo. Lembrou da época que se mudou.

Respirou fundo. Tinha medo até de piscar e o vulto, que continuava imóvel pelo que conseguiu perceber com o olho mais próximo, se mexesse. O vulto, concentre-se no vulto. Um ar gelado tomou conta da cozinha, e ela ficou arrepiada. Foi o arrepio nas duas espinhas mais longo de sua vida.

Ainda sem olhar diretamente, mas mantendo os olhos atentos ao ambiente, Amanda levantou bem devagar e pegou um pano de prato para se limpar. Movia-se como um robô enguiçado.

Continuou caminhando com movimentos friamente calculados até a ultima cadeira, de frente para a porta de vidro. De frente para o vulto, forte e extremamente alto pelo que conseguiu sentir com o canto dos olhos. Pensou que talvez ele fosse mais alto que a porta e desejou que ele tivesse a estatura de Tyrion Lannister.

Um humano macho. Negro, alto e forte. Agora pálido como o leite de Amanda. Ele olhava tremendo e sem reação para a criatura azul clara com 7 olhos espalhados pela cabeça e cheio de tufos de cabelo branco onde sobrava espaço. Três seios pequenos a mostra e um umbigo enorme. Só de calcinha. A calcinha que ela tinha ganho de presente dele.

Todos os olhos de Amanda se arregalaram. Os que haviam sumido foram novamente postos em serviço. Ficou aliviada por não ser um ladrão e sorriu. O rapaz, seu vizinho e namorado, entrou num estado de choque tão grande que perdeu os sentidos e desmaiou ali mesmo na cozinha. Amanda checou sua pulsação e viu que estava bem. Encheu novamente o copo de leite e subiu para o quarto, pensando se o amor e a cumplicidade entre os dois era forte o suficiente para superar algumas pequenas mentiras.

Ebook!! Universo Desconstruído – Ficção Científica Feminista {Coletânea de Contos}

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Durante quase 4 meses mantive um segredo. Um segredo capaz de contribuir para a expansão daquilo que há de mais importante para a nossa evolução. O pensamento. E rumo ao fim ao preconceito. Forte hein!

Fui convidada pela Sybylla pra participar de uma empreitada muito divertida. Escrever um conto de ficção científica feminista. Mas não se engane. Aqui não há padrões, não existem apenas heróis e vilões com mocinhas sensualmente algemadas em alguma rocha lunar, esperando seu salvador matador de alienígenas malvados que querem roubar nossos suprimentos e a receita da coca cola.

Por isso a “Desconstrução”. Queremos modificar o cenário que estamos acostumados a ver. Fugir um pouco do padrão predominantemente masculino na ficção científica. Hoje, mais do que nunca a literatura tem poder, mais do que nunca, felizmente. E foi por ai, com as ferramentas que temos, que contribuímos para mostrar outros lados da mesma moeda. Pessoas de diferentes raças, crenças e sexos. Uma diversidade incrível que deveria ser motivo de orgulho, nunca de exclusão. A ideia é humanizar. Sem transformar mulheres em seres frágeis ou apenas corpos(vazios) sensuais esperando por salvação e homens com força e coragem fora do normal, desprovido de sentimentos mais profundos, cujo objetivo é salvar o mundo porque é isso ai e pronto. Vamos sair dessa zona de conforto e conhecer outras possibilidades. Outros cenários. É divertido.

Conheço pessoas que brincam com a possibilidade de dividirmos o nosso planeta com alienígenas ou robôs inteligentes e autônomos. Mas não consigo deixar de me perguntar como podemos conviver pacificamente com formas de vida diferentes se não toleramos nem as nossas próprias diferenças? Imagine o caos. Veja o caos.

Acredito que a melhor forma de romper as barreiras e destruir o preconceito é inserindo aos poucos um novo contexto (que de novo não tem nada), que nada mais é do que a realidade.

O projeto é encabeçado pela Sybylla e pela Aline. Que se empenharam demais pra tornar essa ideia realidade. Todo o trabalho pesado de edição veio delas. Eu só escrevi um singelo conto. Alias, outras pessoas se juntaram comigo nessa também. Ao todo 10 contos fazem parte da coletânea. Um melhor que o outro.

Autores presentes na coletânea

Organizadoras
Aline Valek
Sybylla – Momentum Saga

Autores
Dana Martins – Conversa Cult
Ben Hazrael – Cabaré das Ideias
Gabriela Ventura – Quinas e Cantos
Thabata Borine
Alex Luna – Tarrask
Leandro Leite
Lyra Libero – Menina Lyra
Tais Fantoni (ilustradora) – Colchões do Pântano
Eu \o/

Quem quer ler Universo Desconstruído?
O download do ebook é gratuito, através do PagSocial. O “pagamento” é apenas em compartilhamento nas redes sociais. É só escolher qual o formato do ebook da sua preferência e clicar no link. Ao entrar no site selecione qual rede social será divulgado o link da coletânea e o download começará logo em seguida. Molezinha.



(versão epub)


(versão mobi)


(versão pdf)


capaA coletânea está disponível na versão física também, no Clube de Autores. Nenhum dos autores terá lucro algum, mas há um custo para adquirir a versão impressa, que é acertado diretamente com o site. O valor é referente aos custos de impressão e encadernação que o Clube dos Autores terá. 😉

E todos os links estão disponíveis na página oficial do projeto

Seria clichê dizer que foi uma experiência incrível? Quando você gosta de escrever e começa a se aventurar nessa arte, não imagina os obstáculos que vai encontrar. E não existe sensação mais deliciosa nesse mundo do que vencer um obstáculo. Concluir um projeto. Tentar fazer a diferença. E melhor ainda se for ao lado de pessoas que compartilham dos mesmos objetivos que você.

Espero que goste do ebook, mesmo, e que isso sirva de inspiração pra todo mundo que gosta e torce pra que a ficção científica siga por esse caminho. O caminho da diversidade, da nossa realidade. Desconstruindo um universo de preconceitos e estereótipos.

Stoker [2013]

stoker-Mia-Wasikowska

Stoker é de uma sutileza impressionante. O modo como a história se desenvolve e os sinais de que um desfecho imprevisível se aproxima. Tudo numa riqueza de detalhes, e com personagens extremamente expressivos. O encanto da história está nos detalhes, gestos, olhares e sensações.

Há quem diga que Stoker é apenas mais do mesmo. Eu tenho uma sensação completamente diferente. Você não criou a roda, mas pode muito bem aperfeiçoá-la. A direção do filme com certeza ficou nas mãos certas. Chan-wook Park rules.

Chan praticamente transformou o que poderia ser um mero suspense barato ou thriller psicológico fajuto em uma poesia de horror.

Na história, India perde o pai em um acidente de carro. Devido à sua personalidade peculiar e estranha para a mãe, as duas não tem praticamente nenhuma intimidade ou amizade. India sempre foi muito próxima do pai e, para causar ainda mais e dificultar o relacionamento entre as duas, o irmão do seu pai, Charles, surge na cidade e passa a morar com as duas. Sua mãe, Evelyn se derrete como mel pelo homem jovem que a faz lembrar do marido na época de mocidade.

Enquanto India vivia como se estivesse inerte ao mundo real que a rodeia, vivendo em outro mundo. Aluna brilhante, extremamente inteligente e esperta, porém apática e distante. Quase não demonstrou sentimentos pela morte do pai, embora o amasse. Pessoas assim sentem o mundo de uma forma diferente. A chegada de Charles mexe profundamente com ela, a ponto de perceber as semelhanças entre eles, que vão além do sangue, eu diria. Charles é charmoso, é misterioso, é o irmão desconhecido que Evelyn só conhecia por nome e mais importante, Charles é quem dá a liberdade para India. A liberdade do conhecimento, da consciência. Se tem uma coisa importante na nossa jornada é o auto conhecimento, não apenas sobre onde estamos, porque estamos e para onde vamos, mas quem somos realmente por dentro. E claro, isso trás consequências, boas ou más.

Encontrei o filme (aqui). E tente não viciar nessa musica. Tente!

Sua carne

wlfmen1Segurou o bebê com firmeza contra o peito peludo. Estava encurralado. Toda a matilha queria matá-lo, estava sendo caçado como um animal, por animais. Se ele largasse a criança talvez conseguisse fugir, talvez o deixassem ir. Talvez. Você largaria seu próprio filho? Ter perdido a mãe foi o bastante para mexer com ele.

Seu faro apurado de lobo sentia a presença dos outros de longe. Podia até distinguir entre eles pelo cheiro. Lambeu sua cria. Ela o olhou com afeto. Uma menininha morena com olhos verdes muito vivos. Seu olhar animal feroz se dissolveu. Estava embrulhadinha na camisa do pai que se rasgou na transformação.

O mais velho da matilha surgiu de um arbusto, pulando agressivamente contra ele. Por instinto tentou virar de costas para protegê-la, dando o braço para o outro lobo abocanhar. A dor lancinante veio acompanhada de uma lembrança, seu tempo estava acabando. Era quase de manhã.

Lobas sanguinárias vieram em seguida, formando um círculo ao seu redor. O bebê era um erro. Um cruzamento amaldiçoado para eles, lobos selvagens. Tinham medo do que viria, medo de uma nova raça. Aquilo que um dia todos aqueles homens e mulheres amaldiçoaram tanto desde que foram mordidos ou gerados de outros lobos hoje era motivo de orgulho. E pra eles a raça deveria continua o mais pura possível. Lobos não cruzam com humanos “puros”, não os amam, no máximo são uma refeição pra eles. O lado animal é o que prevalece.

Segurava sua cria com o braço bom. Seria capaz de matar por ela. Um amor que machucava de tão forte tomou conta de todo seu ser. Era sua unica esperança num mundo solitário. Ela riu pra ele, alheia a tudo que estava acontecendo. Fechou os olhos por alguns segundos, tomando coragem. Pulou por entre as lobas. Uma delas agarrou seu calcanhar e a menina rolou de seu braço. Virou-se para a loba socando seu rosto e a chutou para cima do bando que voava em sua direção. Foi em busca de sua cria, desesperado. Amarrou a camisa com ela dentro, em seu corpo. Correu, correu. Não olhou para trás, apenas correu. Estava quase saindo da mata, podia ver a rodovia. Em alguns minutos sua transformação começaria. Um homem, um pai. Finalmente.

Os outros lobos o seguiram mais um pouco e recuaram, assustados. Viram alguma coisa. Ele não. Mesmo com a adrenalina seus sentidos estavam fracos a essa altura. Mas não deu tempo. Acomodou sua cria ao pé de uma grande árvore. A transformação em homem era a mais sofrida. Era como morrer para renascer humano. Gritava. A menina observava aquele contorcionismo de ossos e pele se reencaixando bruscamente, sem medo algum.

Sons de tiros ecoavam pela mata. Um deles atingiu certeiro seu peito no momento que uivou, agora para o sol. Pelo menos metade da transformação havia acontecido. Uma anomalia, aberração da natureza.

Há muito tempo recebiam denuncias de cães gigantes. Monstros, diziam. Houve casos de ataque a humanos. A polícia resolveu investigar a fundo dessa vez, depois que um colega de trabalho foi encontrado sem as pernas e estomago. Muitas lendas corriam sobre aquela pequena cidade.

O segundo tiro perfurou seu cranio. Respingos voaram no rosto de sua cria. Sua vida. Sua carne.