Um sonho

tumblr_n0p9zxZEHy1qak3vpo1_1280Imagem: TsuruBride

Era quase 3 da manhã. Horário que os mortos fazem contato, os ratos correm pelo forro e os humanos normais já estão no 13º sono. Menos eu, ser agonizante das trevas cafeinadas da insônia cheia de culpa. Essa é a hora que vou deitar e torcer pra ser abraçada por Morfeu.

E fui. Tão logo fechei os olhos.

A noite virou dia. Eu estava no quarto, do qual nunca saí, mas de pé encarando minha cama, igual em atividade paranormal. Estava em transe.

Senti um calor no peito como quando a gente acende uma vela próximo ao corpo. E ouvi sons que vinham do quintal. A coisa me chamava, mas não queria que eu chegasse perto. Assim era complicado. Naquele instante estremeci, e eu tive certeza que era a minha vida, meu outro eu, a quem eu amava perdidamente, eternamente. Não sabia quem era. Eternidade é uma palavra engraçada e assustadora, quase um palavrão que a gente gostava de pronunciar quando criança pra sentir o poder da palavra. Dizer que será eterno é como limitar a sua existência a um determinado evento que durará para sempre, porque sim. Não faz sentido algum. Você sofrerá ou será feliz por toda a eternidade. Você perderá o seu outro eu e viverá dominada pela angustia durante as noites de tormenta. Amém. Dane-se seus planos.

Eu flutuei até o jardim, claro e molhado da chuva, sem sol, mas também sem nuvens negras. Os portões da minha casa abertos e a chave em cima do murinho molhado. Acho que ele estava me esperando há muito tempo. Talvez por isso seu tempo era tão curto.

Sonhos são tão profundos, tão intensos. Você não precisa falar para entender e sentir o que acontece a sua volta e o que querem te dizer. Nós geralmente captamos as coisas de uma forma completamente diferente, nossa percepção fica aguçada e nossa consciência se expande. Ele era a pessoa mais triste que já tinha visto em toda a minha vida.

Extremamente, miseravelmente infeliz. Um homem maduro no corpo de um rapaz mais jovem, que combinava perfeitamente com a minha faixa de idade, pouco mais de 18. E estava de pé olhando pra mim, tocando meus braços pedindo por um ultimo abraço, e chorando como uma criança que presenciava uma tragédia.

Não existe definição para a ligação que nós tínhamos. Nos conhecíamos há décadas, éramos parte um do outro, dividíamos uma alma, talvez a mesma carne e um profundo sentimento de admiração e respeito.

Eu fui tomada por toda essa sensação delirante. Senti o amor, o calor, o apego e a dor. Quando comecei a chorar a chuva voltou, fininha. Uma paz me invadiu, no meio daquela dor absurda e eu me sentia completa, no meu lugar. Ele não. Lamentava cada segundo que passava porque sabia que não sobraria mais tempo algum.

Ele queria que eu lembrasse, queria que eu o visse como ele me via. Mas eu só sabia sentir o que ele sentia.

Eu amei e chorei por uma vida inteira. Breves momentos de algo que nunca existiu e que me trouxe tanta paz e conforto, antes da completa solidão, que eu ainda me questiono sobre o real significado de algo tão intenso.

Nos despedimos. Apenas chorando abraçados, lamentado uma separação inexplicável, que ele se recusava a me dizer. Eu abraçava aquele corpo emprestado, mas que me trazia lembranças profundas daquele que eu conhecia melhor do que ninguém.

Eu já me considerava uma mulher, com meus 20 anos de sabedoria sobre nada da vida. Passei duas madrugadas ardendo em febre, acordando como se estivesse numa piscina. Na terceira noite ele voltou. Tudo ocorreu exatamente como antes.

Passamos o tempo todo tentando nos despedir. Eu soluçava de tanto chorar. Não era mais um sonho, aquela ligação metafísica se tornou real. E antes que eu abrisse os olhos inchados e molhados, escutei bem claro daqueles lábios: Não ficaremos juntos nunca mais. Não deixam.

Eu passei aproximadamente um mês forçando uma nova rotina de sono. Esperei vivenciar aquilo de novo. Por um tempo tudo perdeu a graça, como se tivesse terminado de ler a história mais triste que já fora escrita. E como pode imaginar, ele nunca mais apareceu.

Delírio de Capgras

Invasores de corpos, de 1956. "Cada um com sua vagem."

Invasores de corpos, de 1956. “Cada um com sua vagem.”

Num dia aparentemente comum você abre os olhos e vira pra lado dele na cama. A criatura dorme tranquilamente, como se nada a afetasse. Os olhos colados de remela, a boca escorrendo baba, a respiração tranquila. O ser está agora em sua forma mais pura e indefesa.

Enquanto você espera pacientemente até que ele abra os olhos e lhe dê bom dia, sua mente se enche de pensamentos obscuros.

“como ele pode ter mudado tanto?” “alguém realmente é capaz de mudar, afinal, ou apenas mostramos nossa verdade natureza?” “ele tem ideia do quanto me machuca?”

“somos como cebolas, camadas e camadas superficiais, protegendo um interior tão vasto e complexo de sentimentos que talvez uma vida só não seja suficiente pra entender”

“outra espinha no queixo? Cruzes. Deve ser o chocolate que comeu ontem…”

O vínculo, aquela espécie de cordão umbilical metafísico que os unia, rompeu. Aquela pessoa ao longo dos anos se tornou um completo estranho dentro do mesmo corpo.

Você ainda se relaciona com a amiga da época da escola que trocavam confidencias sem julgamentos. Hoje você fumaria um maço inteiro de cigarros pra evitar conversar. O olhar tão amigo tornou-se algo diferente, impenetrável. É impossível saber o que se passa naquela cabeça cheia de cabelo que apenas concorda com tudo o que você diz. Uma estranha que te faz hesitar até em contar como foi seu dia. Invadida pela sensação de que qualquer comentário é motivo para julgamentos da pior espécie. Aquele que segue apenas por um sinal de cabeça afirmativo e olhar atento, sem resposta ou qualquer sílaba emitida. Novamente, pensamentos obscuros invadem sua mente:

“nossa, que roupinha brega. Certeza que comprou em brechó. Não a conheço mais”

O delírio de Capgras é um distúrbio, na qual a pessoa acredita que alguém muito próximo a ela foi substituído por outra pessoa igual. Um clone impostor com propósitos desconhecidos. Geralmente aparece em pessoas que tenham algum dano cerebral ou problemas mentais, como esquizofrenia.

Invasores de Corpos, de 1956

Invasores de Corpos, de 1956. Impostor nascendo da ervilha maligna borbulhante.

O psiquiatra francês (adivinha, o Capgras), descobriu essa síndrome em mil novecentos e vinte e bolinha. Ele erroneamente associou isso a uma doença mental. Um delírio. Minha teoria é que Capgras nada mais é do que um tremendo choque de realidade, ao descobrir que a expectativa ou admiração em excesso que criamos por alguém pode sim ludibriar nossa percepção. E esse pedestal pode quebrar quando menos se espera, igual o pato de vidro que sua mãe deixava na pontinha da prateleira mais alta da estante, e que você um dia distraída bateu o braço. Porque culpar a si mesmo pela ilusão que criou, se pode delirar e acusar qualquer um de ser um extra terrestre invasor de corpos ou um metamorfo?

Eu, robô. E você?

“Eu existo, porque penso.” Melhor fala em todo o livro, conclusão de um robô espertinho que elaborou sua própria teoria. Veja só!

Eu-RobôJá leu Eu, robô? Com meu super cérebro positrônico (só que não) terminei de ler em uns 3 dias. A leitura é simplesmente fabulosa, torna-se angustiante e termina de maneira sombria. Claro que se você for um robô com um cérebro equipado com as 3 leis da robótica(dos lábios do próprio Asimov), ou um fã da dominação das máquinas, já que perdeu a fé nos humanos, a mensagem do livro será de um futuro promissor para a humanidade. Seu maluco.

Logo de início conhecemos a pequena Glória, que tinha a companhia de alguém, perdão, algo, muito especial pra ela, Robbie, um robô que tinha a função de babá. Consequentemente Robbie tornou-se seu melhor amigo.

Essa é a primeira história de uma série de 9 contos, todos narrados pela velha doutora Susan Calvin, psicóloga de robôs da U.S.Robôs. Velhota que nasceu em 1982, ainda estou digerindo essa. Culpa dos contos futuristas de Isaac Asimov.

A idosa Susan esteve presente ou participou da discussão/solução de todos os acontecimentos narrados. Que vão desde sua juventude até a velhice. Mesmo com uma personalidade difícil e áspera ela consegue nos cativar e sua presença nas histórias é sempre marcante. Ninguém entende das 3 leis e suas implicações nos casos mais macabros do que ela, que obviamente você deve ter sacado, não nega sua preferência por robôs ao invés de humanos. Psicologicamente falando ela era praticamente um robô. Acho que nos tornamos parte daquilo que amamos, com ela não é diferente.

Já no fim da carreira ela sede seu tempo pra contar numa entrevistapreview_html_620709ea várias complicações e um certo acidente tão incrível quanto perigoso que aconteceram por baixo dos panos. Todos os contos tem uma abordagem muito sutil e delicada sobre robôs. Não são descritos apenas como a ameaça terrível que vemos em filmes ou outras histórias. É como um prelúdio do que virá. No caso de Robbie, ele gostava que a pequena menina lhe contasse histórias dos livros infantis. Isso é um pequeno detalhe que mostra o potencial da robótica para os próximos anos. Ele era um dos primeiros modelos de robôs para uso pessoal, na década de 90, em que ainda era permito robôs para este fim. Com apenas um cérebro positrônico primitivo, semelhante a mentalidade de uma criança (as 3 leis inclusas), e desprovido de fala, o robô dava sinais de personalidade.

As três leis são bem exploradas e colocadas do avesso pra desvendar os estranhos acontecimentos envolvendo as máquinas. Com direito a adivinhações e rotinas de programação construídas mentalmente por nós leitores ao longo da trama, que exige muito da nossa atenção e concentração. Acho que esse é o ponto que incomodou algumas pessoas. O foco excessivo nas três leis. Ao meu ver isso é justamente o ponto alto do livro e prova como Asimov não só criou uma ficção, e sim um novo conceito pra robótica. Ele é um gênio por isso.

Os contos trazem de tudo. Robôs malucos, mentirosos, fujões, com complexo de superioridade, e medo de magoar sentimentos humanos. E temos a questão do complexo de Frankenstein, criada também por asimov, e pelo que entendo, é o medo das pessoas pelos robôs. Semelhante ao caso de Victor Frankenstein que sente repugnância por sua própria criação e entende a monstruosidade que criou. A criatura, na qualidade de um ser completamente orgânico quer vingança por ser renegada. No caso da robótica é o medo das pessoas em serem dominadas por elas. Mas e elas, o que “pensariam” de serem descartadas?

Falar sobre robôs é falar sobre humanos. Por mais avançada que seja uma inteligência artificial, ainda assim ela precisa de um ambiente para aprender e desenvolver suas capacidades analíticas. Nós somos a base. E a mais insignificante entonação de voz ou gesto tem uma grande importância para um robô no universo de Asimov. Sempre armados com as 3 leis, percebemos que no livro que diversas falhas e erros nada mais é do que falha de comunicação e completa cooperação entre homem e máquina. E como Susan apenas sugeriu, por medo de confirmar a suspeita, uma máquina sabe que somos traiçoeiros e mentirosos por natureza. E aparentemente as máquinas estão preparados pra isso.

E o engraçado disso, é que nós caminhamos rumo a essa evolução robótica, a passos de formiga mas caminhamos. Asimov apresenta todos os questionamentos possíveis e impensáveis dentro da psicologia dos robôs. A ideia de criar um automato se torna mais assustadora do que empolgante. Embora acredito que isso seja impossível, já que a U.S.Robôs tem a patente dos circuitos emocionais cerebrais. É mole?


Mais:
Se ficou curiosa(o), encontrei esse pdf bacaninha do livro.

Para sempre

japanese-cherry-blossoms-496092-m Imagem: freepik

 

Juraram amor eterno ao pé da árvore de cerejeira. O que sentiam era tão intenso que palavras soariam bobas e desnecessárias, especialmente naquele momento. Permaneceriam juntos pra sempre. Lutariam, e estavam certos de que venceriam qualquer obstáculo. Nada nem ninguém teria poder pra destruir o laço que criaram.

Um marcado por uma infância de abusos, o outro de abandono. Encontraram suas recompensas por uma vida tão miserável e sem nenhuma esperança. Encontraram amor num mundo que sempre lhes tratou com hostilidade.

E quando morressem suas almas vagariam uma ao lado da outra, compartilhando a liberdade e as descobertas da eternidade. Se um dos dois deixasse de respirar o outro pararia seu próprio coração. Se um estava triste o outro sentia um aperto no peito onde quer que estivesse e logo reconhecia o sentimento. Um sentimento que não era seu, era compartilhado daquele que escolheu para passar o resto de sua existência.

Os dois homens se olhavam paralisados, cansados e suados. A respiração acelerada, olhos molhados e boca seca. Um tinha olhos azuis como o céu numa tarde ensolarada, o outro olhos verdes como a grama. Um colorido que os hipnotizava simultaneamente. Por um momento se esqueceram do trabalho que precisavam terminar.

Um deles reparou nas mãos sujas de seu companheiro. Mãos delicadas demais para se encherem de terra. Mãos que já estavam vermelhas e com calos de usar a enxada. Tão diferente das suas. Ásperas e cheias de marcas de cigarro e gilete.

Seu pai se tornava sádico quando bebia e ele era sua diversão particular. Virava um bonequinho de olhos azuis, cheios de vida e pronto para ser surrado, cortado, queimado e violentado de todas as formas possíveis.

Fechou os olhos não contendo as lágrimas. Sentia vergonha do pequeno segredo que compartilhariam pelo resto da vida.

O outro lutava consigo mesmo para não desabar. Ajeitou o revolver na cintura para não cair. Precisava ser forte pelos dois. Beijou-lhe na testa, limpou as mãos de terra na calça pegando a enxada em seguida e continuou a cavar a cova em que, juntos, enterrariam o pai de seu amante.

Open Grave 2013

Juro que nunca mais bebo desse jeito...

Ai, carai mano, juro que nunca mais bebo desse jeito…

Um homem – com voz de dublador de jogo de guerra, e que é o mesmo cara do Distrito 9, será que ganhei sua atenção? – acorda numa vala, todo sujo e machucado, com um monte de corpos desfigurados ao seu redor começando o processo de decomposição. Moscas, muitas moscas, podridão por todo lado. E sem lembrar de absolutamente nada, nem do primeiro nome. E há quem ainda reclame da segunda feira.

Mas o que parece resultado de um feriado prolongado muito estranho é na verdade um filme de terror.

Próximo à cova que estava há uma casa com mais 5 pessoas. Ele é ajudado por um deles, uma garota que parece conhecê-lo. A única, mas nem tudo são rosas. Assim que entra na casa descobre que os outros sabem menos ainda do que ele. O que por um lado deve até servir de consolo. O homem tem apenas um revolver nas mãos, que não sabe como adquiriu, e roupas ensanguentadas.

open grave2O grupo, embora desconfiado da presença do nosso protagonista, se une para descobrir o que diabos estão fazendo ali e por que.
Tudo muito misterioso, cheio de moscas, gente feia e suja e flashes de memória comprometedores. E a pergunta que não quer calar. Qual deles matou aquelas pessoas? Não é pouco suspense não.

Esse foi um dos primeiros filmes que assisti no mês por indicação. Já comecei bonito. Comece você também. Interessante que Open Grave sai da zona de conforto e cria uma trama envolvente e inteligente sobre um tema que há tempos não surpreende mais.

Achei o danado aqui.