Culpa

Culpa

Imagem:  freepik.com

 

Nicolas finalmente abriu os olhos, recobrando a consciência lentamente. Como sempre a primeira coisa em que pensava era em Milou. Por impulso tentou se levantar, mas sabia que era impossível se mexer.

Continuava vivo, sentindo toda a dor e o prazer disso. Ele não se entregaria tão fácil, não poderia, nem seria justo. Uma lágrima escorreu do olho esquerdo, tão pequena que logo foi absorvida pelo rosto ressecado e desidratado. Seus pensamento foram cortados por um forte barulho, vindo da madeira que tampava a caixa onde se encontrava. Flocos de areia e sujeira entraram pelas frestas, caindo diretamente nos seus olhos. Já não se dava mais ao trabalho de limpar, e mesmo que tentasse seus braços não dobravam naquela caixa tão estreita, alias, feita sob medida para seu corpo.

Vivia como um cadáver, pele e osso. Devido à falta total de movimentos tinha câimbras fortíssimas, desenvolveu alguns hematomas na parte de trás das coxas e antebraços, exalando um odor fétido. Exceto pelas vezes em que era alimentado por um minúsculo buraco do lado esquerdo de seu caixão, o suficiente para não morrer por inanição, sendo que a maior parte do cardápio era água. Uma eterna agonia, na qual ele era o espectador e voluntário nesse show de horror.

A madeira continuava rangendo. Passos. Lembrou-se novamente de Milou. Na verdade, não deixou de pensar nele um só minuto. E como poderia?

A cada puxada de ar sentia o pulmão queimar. A sensação era como se estivesse num deserto e em vez de água engolisse a areia quente. Mas não podia desmaiar, precisava se manter firme para sentir tudo o que viria. Isso fez com que ficasse agitado piorando a situação e já não podia mais recuperar o folego totalmente.

Mais passos.

Queria gritar, implorar perdão, chorar até perder os sentidos. Queria ao menos se despedir, dizer tudo o que um pai deve dizer a um filho, o tipo de atitude que poderia mudar complemente o relacionamento entre eles. Aquela tragédia significava dizer a Milou que Nicolas não se importava com ele, e que não sabia reconhecer se o próprio filho estava vivo ou morto. Mas as semanas foram passando, e agora, perto do momento final, sua garganta vacilava, não havia água o suficiente para uma ultima lágrima e a culpa já o tinha corroído como um câncer.

Estava morto há muito tempo. Desde o dia em que Milou foi enterrado prematuramente aos 15 anos. Não existem muitos corações por ai que voltam a bater depois da hora do óbito. O médico, claramente equivocado e despreparado foi julgado e condenado, não por não ter diagnosticado a doença rara de Milou, mas por não reconhecer que embora quase nulo, o menino ainda apresentava fraquíssimos sinais vitais.

Agora ouviu vozes em meio aos passos. Dois homens, conforme o combinado, ambos falando sobre Nicolas e combinando detalhes. Eles pegaram o caixão e gentilmente o colocaram na cova que havia sido cavada há 2 dias, especialmente para ele.

Seu coração batia com tanta força que chegava a doer, talvez tenha sido assim com o filho também, quando recobrou a consciência. Depois de um tempo em silêncio, eles completaram o trabalho pro homem que os pagou para o enterrarem vivo.

Fechou os olhos novamente quando o silencio tomou conta do lugar, pensando em Milou uma ultima vez.

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