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Brazilian Horror Story #1

Carmen chegou na casa nova na periferia de São Paulo. Depois que sua firma faliu e seus investimentos na bolsa não deram certo ela ficou sem nada, estava quebrada. Era uma mulher rica e mimada, que sempre teve de tudo e agora teria que se acostumar com a nova vida na pobreza.

Assim que colocou os pés na casa sentiu que algo estava errado, não sabia o que era, apenas a sensação de algo maligno, que fez Carmen se arrepiar. Talvez fosse a pintura horrível do lugar.

Trouxe tudo o que restou para a nova residencia, largou na sala e, como já era tarde foi se deitar. Eram mais de 3 da madrugada e Carmen não conseguia dormir. Levantou e foi para a cozinha beber alguma coisa. Chegando lá escutou um barulho vindo do teto, passos de um rato, levou um susto tão grande que deixou o copo de plástico cair no chão, derramando todo o suco nos pés.

Irritada, avançou em cima de um pano de pratos, mas escorregou no suco e bateu a cabeça na quina da mesa, naquele cubículo de cozinha dos infernos, pensou. Acertou direto o olho esquerdo. Ela se ajoelhou e espremeu os olhos com as mãos molhadas de suco, o que fez arder ainda mais o olho machucado.

Cambaleando, conseguiu se levantar e foi para a pia lavar o rosto. Ficou de costas para a porta, quando sentiu que estava sendo observada. Tentou olhar com o canto do olho bom, sem mover a cabeça para o lado. Escutou algo se mexendo e resolveu virar. Se deparou com 4 baratas enormes, 3 caminhando pela geladeira e uma andando numa sacola no chão. Notou também um buraco no fim da parede, de onde possivelmente sairiam mais.
Enjoada, saiu da cozinha quase correndo, mas quando passava pela sala tropeçou nos tacos cheio de cupim. Acabou descolando parte da unha do dedão, se levantou novamente tentando não chorar, e subiu para o banheiro. Então abriu o chuveiro no máximo, fazendo com que a força da água arrancasse uma parte do metal velho do chuveiro, acertando o olho bom.

Caminhou em direção a porta, a maçaneta enferrujada não abria e ela não tinha forças naquele momento. Pegou no sono ali mesmo, no chão no banheiro.

Na manhã seguinte ouviu alguém batendo a porta, não tinha campainha então o homem gritava. Ela estava usando o roupão que pegou de um hotel, os cabelos desgrenhados e os dois olhos roxos.
Conseguiu abrir a porta emperrada, e desceu para ver quem estava batendo. Era o advogado do ex proprietário do imóvel, entregando toda a documentação da casa.

– Parabéns dona Carmen, o imóvel é seu, para sempre.

– Nãooooooo….

Red Eye

Red Eye

Clay começou cedo. Quando era criança assistiu o pai matar sua mãe, em uma briga na cozinha enquanto ele lutava para pegar a faca que a mulher cortava os legumes. Bateu a cabeça da esposa na pia tantas vezes que deixou seu cranio amassado e a mandíbula deslocada. Mesmo assim pegou a faca e rasgou a sua garganta.
O pai se jogou no chão percebendo o que tinha acabado de fazer, não se movia, e, se não fosse pela respiração, poderia dizer que estava tão morto quanto a esposa.

E o pequeno Clay assistiu tudo aquilo, de dentro do quarto espiando pela frestinha da porta. Aquele momento foi decisivo e mudou o rumo de sua vida.

25 anos se passaram, e Clay se tornou um homem de 30 anos, porte atlético e feições de um anjo. O que ninguém poderia imaginar é que ele tinha uma fixação por mulheres ruivas, mortas e cobertas com seu próprio sangue, de preferencia. A obsessão veio quando conheceu uma garota ruiva no dia que fugiu do orfanato onde passou o resto da infância e começo da adolescência.
Ela era diferente das outras garotas, para ele, a menina ruiva era especial, assim como achava que a mãe era especial para o seu pai. Foi sua primeira vítima.

A polícia está atrás de Clay há uns 4 anos, Red Eye na verdade, ele adorava esse apelido. É assim que os policiais o chamam. Sempre sorria quando lembrava de ver noticias a respeito dos assassinatos que cometeu, exibidos em todos os noticiários. O melhor era saber que a policia não tinha ideia de quem seria o serial killer por trás das mortes de todas aquelas mulheres. Sentia tanto orgulho daquilo como um homem sente por pertencer a alta classe social.red-eye1

Até que um dia conheceu Anastácia, em um café onde ia sempre. Era a mulher ideal que ele jamais poderia sonhar. Tinha a doçura de sua mãe, as sardas e o tom de cabelo claro avermelhado que lembrava a primeira garota ruiva que conheceu. E nesse momento algo o impediu de matá-la, precisava conservá-la para si. Estava apaixonado. Ela parecia correspondê-lo e não demorou muito para que começasse um relacionamento entre eles.

E com o tempo, um ano e meio precisamente, as mortes pararam e todos esqueceram de Red Eye, ou tentavam não se lembrar dele.

Mas um dia Anastácia precisou viajar a negócios, e Clay decidiu que mataria uma última vez, como um viciado que precisa de uma ultima dose. Pensava nisso há meses. Encontrou sua vítima e a seguiu, na verdade já estava de olho nela a muito tempo, e sabia que era sozinha. Tinha tudo preparado, já de luvas aproximou-se da mulher entrando pelos fundos da casa e a pegou de surpresa. Alguns segundos depois de segurar um lenço úmido em seu rosto ela desmaiou. A mesa da cozinha era grande o suficiente para deitá-la. Prendeu seus braços e pernas na mesa com muita fita adesiva, estava ansioso, queria ser rápido. Mas a falta de prática o deixou desleixado e distraído. Abriu um pedaço da camisa da mulher de forma estúpida, com uma mão apertou a região do colo onde faria o primeiro corte, mas tremia tanto que sem querer passou o faca em sua luva de plástico e se cortou. Alucinado resolveu levá-la para o galpão que alugava e pensar numa forma segura de se livrar dela, ao invés de deixar um corpo como troféu na cena do crime como fazia nos bons tempos.
Mas ele nunca havia cometido um deslize desses, estava assustado, e para piorar lembrou que tinha esquecido as chaves do galpão em casa.
Colocou a mulher no carro e foi para sua casa. Chegando lá procurou pelas chaves em todos os lugares, mas estava ansioso e nervoso demais, não encontrava. Resolveu trazer a vitima e a deixou em um quarto que usava de escritório, depois voltou a cena do crime para se certificar de que não tinha deixado vestígios.red-eye2

Mas quando voltou Anastácia estava em casa. A viagem foi adiada de ultima hora e ela quis fazer uma surpresa para Clay. Estava em pé em frente a porta aberta do escritório, parecia chocada, mas não assutada.

Red Eye? – disse Anastácia.

Ele estava envergonhado por ela ter descoberto dessa maneira, com um deslize dele, mas de certa forma aliviado por poder compartilhar seu segredo com a mulher que amava desesperadamente. No fundo ele queria que ela soubesse, queria mostrar o quão poderoso ele era. O homem que apareceu em todos os noticiários mas ninguém o encontrava. Se sentia praticamente um Deus.

Quando perguntou se seria a próxima ele se sentiu ofendido com o medo dela e explicou que aquela era a última vez. Imediatamente o olhar de Anastácia mudou, ela passou do terror a curiosidade mórbida.

E o que pretende fazer com esta aqui? – disse ela.

Clay não podia acreditar, as palavras mal saiam de sua boca, mas não pode evitar um leve sorriso quando percebeu as intenções de Anastácia. Por fim contou o que tinha acontecido e que teve de interromper o trabalho por causa do corte na mão.

Nesse momento ela resolveu falar um pouco de sua história também, dos sonhos, da excitação que sentia ao pensar que poderia realmente matar alguém e dos vários tratamentos psiquiátricos que foi submetida na adolescência, devido aos seus comentários perturbadores. Conversaram enquanto observavam o corpo da vítima começando a se mexer, estava acordando.

Sem dizer mais nada, Anastácia foi até a cozinha e pegou uma faca. Depois segurou a mão dele e o puxou para dentro do quarto. Então Clay assistiu aquela mulher maravilhosa, perfeita, sua companheira sedenta de sangue retalhar sua primeira vítima que se contorcia e gemia de dor, com gritos abafados pela fita isolante em sua boca.

Com as mãos e o corpo ensanguentados ela agarrou Clay e os dois se beijaram intensamente, como se tivessem selado um pacto naquele instante.
A visão daquele sangue, o cadáver e o olhar de sua futura esposa eram surreais para ele, foi a melhor noite de sua vida. Red Eye voltou, mas não conseguiu deixar de pensar em que apelido os policiais dariam para Anastácia.

 

Aproveitando que é o mês de Serial Killers no desafio literário 2012.

Dedico a Jeane Freitas.

 

 

Reabilitação – Em busca de um mundo [sem] internet – Dias 2-3

A Verdade

Acordei com a enfermeira que me deu a injeção ontem, bom, acho que foi ontem. Ela entrou no quarto junto com um enfermeiro, não era nenhum dos dois que estiveram comigo ontem. Será que eles estão bem?

Ela trouxe uma prancheta com alguns papéis, uma caneta e um belo sorriso no rosto. Se aproximou de mim e pediu gentilmente que eu assinasse diversas copias de um documento. Afinal, eu sou maior de idade e precisavam da minha assinatura para me manterem aqui dentro.
Estava fraca e com tanta fome que nem consegui raciocinar direito, assinei onde tinha um x e entreguei a prancheta de volta para a enfermeira. Mas enquanto observei ela conferindo os papeis perguntei se eu ficaria com alguma cópia, ou meus pais no caso, mas ela apenas sorriu novamente, de um jeito assustador devo dizer, e foi embora.
Depois de uma hora mais ou menos, alguém bateu na porta, um homem abriu apenas o suficiente para jogar uma bandeja de comida e fechou novamente as pressas. Não tinha garfo, faca ou colher. Tive que comer com as mãos, e lamber o prato para não desperdiçar o feijão que estava tão gostoso. Joguei a bandeja no chão irritada, e senti naquele momento que não deveria ter assinado aqueles papeis.

Peguei algumas roupas no armário de metal ao lado da cama e fui tomar um banho. Por sorte a porta do banheiro tinha tranca por dentro. Assim que sai do banheiro, já vestida e arrumada encontrei mais enfermeiros que me levaram para uma espécie de laboratório. O lugar era dividido em duas partes, mas só tive acesso a uma, a outra estava bloqueada com umas cortinas de plástico foscas, não sei se tinha alguma porta por trás delas. Mas juro que ouvi um grito abafado do outro lado.

O lugar estava cheio de gente, todos vestidos como eu, com as mesmas roupas do armário de metal e caminhavam juntos em fila na direção de uma portinha.

Os enfermeiros gorilas me deram algumas instruções, e logo perguntei o que queria saber desde que acordei. Por quanto tempo eu dormi? Eles se olharam e disseram que esse era meu terceiro dia aqui e finalmente saíram de perto. Ótimo, apaguei um dia inteiro. Enquanto caminhava para aquela enorme fila indiana senti um puxão no braço, me virei para o lado e vi um dos enfermeiros que estiveram comigo antes que eu apagasse com a injeção.

Ele tinha chorado, estava com uma aparência péssima, não soltava meu braço, só conseguia ficar me olhando.

Com os lábios trêmulos ele me disse: Seremos lobotomizados…

Continuação da crônica na página Strange Times.

 

Reabilitação – Em busca de um mundo [sem] internet 1° dia

A Chegada

No dia 14 do mês passado fui internada contra a minha vontade. Como sempre estava em casa de pijamas sem ter tomado banho nem escovado os dentes, de frente para o computador.

Logo que fui abandonada na porta da clinica um homem de preto veio ao meu encontro, me convidando para entrar. Ele estava vestido de preto, tinha luvas de couro até os cotovelos e um jaleco de médico que quase raspava no chão, de cor preta também.

Enquanto me apresentava o lugar disse que o primeiro dia seria apenas de descanso, ou desintoxicação como ele gosta de chamar. Perguntei o que eu faria o dia todo e então, quando chegamos ao refeitório, ele chamou a enfermeira e pediu que me desse uma injeção chamada Off.

Na hora fiquei nervosa, eu queria explicações primeiro e não que me colocasse pra dormir como se eu fosse uma cobaia em teste. Mas o homem de preto, Adolf, se não me engano, tentou me acalmar e disse que isso fazia parte da merda do procedimento deles. Pro inferno com o procedimento, pensei.
Só que o lugar era todo cercado com arame farpado, uma tela de 10 metros acima dos muros, e em todas as portas se tinha pelo menos 2 enfermeiros de cara fechada. Achei que era melhor cooperar.

Adolf se despediu e saiu, a enfermeira me levou para o meu quarto e disse que a injeção me deixaria sonolenta por várias horas, eu não iria simplesmente apagar, e que também iria demorar uns 40 minutos até que começasse os efeitos. A intenção era me fazer relaxar e tentar dormir.

Então ela abriu uma mala de metal com o desenho de um cabo de rede coberto de sangue ao lado de uma CPU e retirou uma seringa com um liquido roxo, injetou no meu braço direito, sorriu e foi embora.

Mas, como e disse no outro post, por sorte, a clinica me permitiu 15 minutos para deixar uma mensagem aqui no blog, de que eu ficaria ausente por uma semana. E lá estava ele na minha cama, um notebook itautec, doação do governo para a clinica.

Resolvi escrever um post aqui no TNN contando o ocorrido. Mas passei alguns minutos do prazo e logo dois enfermeiros corpulentos entraram no quarto sem bater e voaram pra cima de mim. Um deles empurrou meu peito, com uma mão só e eu bati com toda força as costas na parede. Enquanto o outro retirava o notebook das minhas mãos.

Ambos eram gigantes e mal encarados, vestidos de branco como médicos, eu me senti em um sanatório naquele momento. Mas o homem que me retirou o notebook era educado e se desculpou pelo amigo que me empurrou. Ele estava nervoso, fazia exatamente 3 semanas aquele dia em que ele não acessava nenhuma rede social, apena o e-mail, 2 vezes por semana, o qual foi configurado para não receber solicitações de facebook, twitter e nenhuma outra rede social. Mas assim que fiquei sabendo reparei como ele olhava para o notebook, aquela tela ligada e amigável, mal piscava. Ele não tirava os olhos da tela até que o outro homem, o enfermeiro bonzinho, o abraçou e começou a consolá-lo, dizendo que ele precisava ter força, que era para seu próprio bem.

Os dois começaram a chorar na minha frente. Eu não aguentei, naquele momento senti a dor deles. Percebi que trabalhavam lá mas também estavam em reabilitação. Então lembrei de todas as vezes em que, por qualquer razão eu perdi o sinal de internet e fiquei horas desconectada. Sabia que aquele seria o primeiro dia da minha nova vida e, apesar de já começar a sentir os efeitos do remédio que injetaram em mim, abracei os enfermeiros também. Nós 3 choramos juntos no quarto, sozinhos.

Continua…

Continuação da crônica na página Strange Times.

A decisão de Hanna

Hanna estava cansada porém determinada. Cansada do rumo que sua vida tinha tomado, e determinada a dar o próximo passo.

Subiu no terraço, em lágrimas. A maquiagem preta escorria pelo seu rosto, cobrindo parte da mancha roxa que tinha no olho esquerdo. A marca do soco de ontem, o último soco da sua vida. Lutava ao máximo para conter as lágrimas e se controlar, mas a dor não estava mais na carne, era na alma, e ela não tinha mais controle algum sobre suas emoções naquele momento.

Tentou focar seu pensamento em outra coisa. Olhou as estrelas e aproveitou para contemplar aquele céu lindo, sem vento ou nuvens, apenas estrelas que piscavam para ela quase como um sinal de aprovação pelo que ia fazer.

Acho que até as estrelas estão ao meu favor esta noite. Isso deve ser um bom sinal, pensou.

O prédio ficava a poucos minutos de casa, ali morava sua melhor amiga, Elizabeth, para onde Hanna sempre corria quando precisava de ajuda ou conselhos. Embora ela soubesse muito pouco da vida e hábitos de Elizabeth, as duas eram muito unidas. O prédio era velho e tinha poucos moradores, já poderia ser considerado um monumento histórico e o terraço era o local perfeito, ninguém ia lá.

De repente o marido de Hanna chegou na portaria, se apresentou e subiu direto para o terraço. Já estava nervoso por ter sido chamado lá, não aceitava ordens de Hanna. Nem quis explicações, foi para cima dela gritando, com o braço levantado e a mão fechada pronto para mais um saco.

Mas antes que ele fizesse qualquer coisa, Elizabeth apareceu atrás dele e cravou um punhal em seu ombro, com toda força. O homem se ajoelhou e gritou de dor. Ela então retirou o punhal cheio de sangue e cravou novamente em suas costas, depois no pescoço. Brincava com ele como se espetasse um boneco de voodoo.

Era incrível a força e o ódio de Elizabeth, isso deixou Hanna chocada. Embora Elizabeth tivesse prometido que se livraria dele, ela não imaginava que veria uma cena dessas.

Agora vá, preciso preparar o corpo para levá-lo a um lugar seguro. Não se preocupe, ninguém nunca o encontrará, disse Elizabeth. Depois abraçou Hanna, que começou a chorar novamente. As duas se despediram e ela foi embora sem olhar para trás.

Assim que Elizabeth se viu sozinha no terraço, agachou-se diante daquele homem que ainda estava consciente. Passou a mão por quase todo seu corpo, como se estivesse admirando-o. Então seus olhos ficaram completamente negros e caninos afinados despontaram de sua gengiva.

Ela o mordeu no pescoço, onde o atacou com o punhal. O sangue jorrava de sua artéria e ela ria loucamente, esfregando o sangue da boca por todo o corpo, em sinal de alegria e êxtase.

Elizabeth não se alimentava há semanas…