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Prelúdio do Inferno

Helena entrou correndo. Nem bem trancou a porta e as dores recomeçaram. Dessa vez ela se jogou no chão e gritou loucamente. Suas mãos cresciam, suas unhas começaram a rachar. Os olhos estavam saltando para fora a medida que a dor aumentava. Sentia a pressão no peito, o coração inchando. De repente outra dor tomou sua atenção, gemendo e gritando o tempo todo, agora sentia alfinetadas na cabeça. Por instinto pressionou as mãos contra a cabeça, puxando os cabelos. A força era tamanha que ela arrancou os próprios cabelos com as mãos.
Agora todo seu corpo queimava, seus braços já estavam tão inchados quanto as mãos. A cabeça aumentou também, o cérebro inchava lentamente. Com o tempo, toda a sua pele e ossos se deformaram, expandindo-se para adaptar-se ao inchaço de todos os seus órgãos e artérias.

Helena era ateia, mas naquele momento gritava descontroladamente, implorando por um Deus que, se existisse, a odiava muito. Mas quanto mais esforço fazia mais rápido era a metamorfose. A veia de seu pescoço rompeu, explodindo sangue no chão. Perguntava o porque, gritando o máximo que podia, numa voz já irreconhecível. Não pode continuar, seus olhos esbugalhados se reviraram e ela começou a ter uma convulsão.

– Doutor, por favor não me esconda nada, existe a possibilidade de que Helena saia do coma um dia?

O doutor olhou para o rapaz com um olhar esperançoso. Estava acostumado a mentir.

– Sim, Otávio. Helena é uma mulher muito forte, tenho certeza de que em mais algumas semanas ela começará a dar algum sinal de melhora. Sua mulher ficará bem, você verá.

– Ela ao menos pode me ouvir?

– Isso não posso afirmar, alguns dizem que sim, outros dizem que o paciente em coma cria um mundo paralelo, como um sonho, um mesmo sonho, e o revive todos os dias até que acorde.

Reabilitação – Em busca de um mundo [sem] internet – Dias 6-7 FIM

O Amor

Passei a tarde com o enfermeiro, sentada no gramado fingindo ter uma conversa irreal sobre as histórias que não existiam naqueles livros em branco, e tomando o famoso suco de maracujá com cor de água suja que a clinica oferecia, até que era bom. Aproveitei para conhecê-lo melhor, descobri que seu nome era Pablo.

Falava tranquilamente, virando algumas paginas do livro até que apareceram um monte de anotações, então me explicou o que estava acontecendo. Isso foi o que ele disse:

Eles estão usando vocês como cobaias. Somente alguns enfermeiros tem permissão para acompanharem os pacientes na operação, alias, poucos sabem disso. Nas minhas investigações encontrei muitos cadernos, livros, planilhas e documentos, como não posso usar meu Smartphone, anotei o mais importante nesse livro em branco. O que pude compreender é que eles estão tratando vocês como se fossem viciados em drogas, de acordo com as pesquisas a quantidade de dopamina liberada com o uso da internet é o mesmo de drogas pesadas, causando uma dependência equivalente e mexe com todo o sistema límbico que controla as emoções, por isso a abstinência enlouquece muita gente, causando até sintomas físicos. E fica pior, encontrei fotos dessa clinica com data de 1890, era um hospício aqui. Eles faziam estudos com pacientes desde essa época e descobriram uma forma de lobotomia que consiste em fazer uma incisão em uma determinada parte do sistema límbico, controlando o desejo desenfreado que nos leva ao vicio, diminuindo as doses de dopamina liberadas, e tornando as pessoas menos emotivas e controladas. Mas, como você viu, alguns não tiveram sorte e viraram vegetais, outros foram considerados curados, e nós, bom, nós somos diferentes.

Nós? eu perguntei, me lembrando em seguida de que ele também tinha sido capturado e virado cobaia, provavelmente porque sabia demais. Então ele segurou as minhas mãos frias e acabou dizendo:

Pessoas com tdah (transtorno déficit de atenção e hiperatividade) resistiram ao tratamento. Apesar de vários estudos sobre a disfunção no lóbulo pré frontal, comprometendo a concentração, impulsividade e memória, nós temos o hiperfoco. É quando o cérebro basicamente dá tudo de si, trabalhando em 110%. Os cientistas descobriram que quando “ativamos” o hiperfoco algo mais acontece, como regeneração do tecido cerebral. Por isso o tratamento não funciona. Provavelmente eles não monitoram as atividades cerebrais de ninguém, nem mesmo fizeram tomografias, então, enquanto você fingir que joga com as regras deles jamais irão desconfiar.

Ficamos alguns minutos calados nos olhando. Pablo sabia que eu precisava de um tempo para absorver aquelas informações. Passamos horas conversando e caminhando. Ele ainda tinha muito mais para contar, parte da lobotomia era fazer uma espécie de lavagem cerebral, causando ilusões de ótica, algo bem complexo que nem mesmo Pablo sabia explicar precisamente, mas dava para entender como os outros liam os livros em branco, era como um teste, nos induzindo a ver e acreditar naquilo que eles quisessem. Durante toda a conversa eu me perguntava como ele descobriu tudo, como sabia tanto? Algo ainda me perturbava. Então resolvi perguntar logo de uma vez.

– Eu sou um investigador policial disfarçado, nem deveria estar falando com você, mas eu não conseguia deixar de te notar, eu, bom…eu acho que estou…

Aparentemente os enfermeiros perceberam que agíamos estranho, ou talvez fosse porque Pablo não largava o tal livro e dava impressão de ter realmente algo escrito ali, ou descobriram o disfarce dele. Só sei que ele vieram correndo em nossa direção, o primeiro que se aproximou veio direto pra cima de mim, mas Pablo me defendeu e se atracou com ele, dois gigantes lutando. Ele não teve muita dificuldade em derrubar o enfermeiro, e logo vieram outros, eu abaixei para pegar o livro do chão, Pablo segurou minha mão e saímos correndo para a área de caminhada que levava a um portão largo de metal. Liberdade?

O portão era alto demais, ele me fez pular primeiro, subi no seu ombro e me agarrei ao portão. Quando estava chegando no topo senti uma corrente elétrica invadindo meu corpo, uma dor alucinante. Pablo gritava muito nome, me segurando em seus braços, mas eu estava quase inconsciente, fui jogada a vários metros do portão. Lembro de ter visto ele me deitando no chão, depois entrou em um arbusto e voltou com uma arma e um celular bem antigo nas mãos. Atirou em alguma máquina ao lado do portão, de repente escuto gritos, mais enfermeiros chegando, e mais tiros, então eu apaguei.

Não sei quanto tempo estive apagada, mas acordei na cama de um hospital. Não, eu gritei, não. Arranquei uma seringa que estava presa ao meu braço, me levantei e fui correndo em direção a porta. Mas então ouvi a voz dele, e sua mão tocou meu ombro.

– Está tudo bem, conseguimos sair da clinica, chamei reforços. Você está salva aqui.

Pablo estava com a cabeça enfaixada, um olho roxo, e um braço quebrado. Ainda sim estava lindo. Começamos a namorar uma semana depois, logo que o escândalo da clinica foi parar em todos os jornais e os responsáveis presos. As famílias foram indenizadas, principalmente dos pacientes que viraram zumbis, mas nenhum dinheiro no mundo poderia reverter aquela situação.

Hoje Pablo me pediu em casamento, como um bom detetive acho que ele já suspeitava do meu sim. Como ele é um investigador está sempre em alguma missão, geralmente precisa se ausentar por muitos dias, em alguns casos semanas. Mas combinamos que nos falaríamos todos os dias pela internet.

FIM

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Skye decide morrer

Skye sentou no chão frio do quarto, e assim ficou por horas, braços envolta dos joelhos, imóvel, apenas respirando e tentando encontrar boas razões pra continuar viva. Os médicos a observavam de 30 em 30 minutos, pelo vidro da porta do quarto.

Ela estava condenada, condenada a uma dor dilacerante e insuportável, aquela que poucas pessoas sentem ou sentirão na vida. A dor de não encontrar satisfação e alegria em nada ou em ninguém. A dor de se sentir incapaz de realizar qualquer tarefa que envolva alguma responsabilidade, incapaz de se realizar, incapaz de ser feliz.

Para Skye, a felicidade está em ser útil e desempenhar com perfeição suas funções. Pessoas ao seu redor são meros complementos, não prioridade. Naquele momento pensou em todas as pessoas que conhecia, em como ficariam após a sua morte, e quando percebeu que já tinha cuidado de todas elas, uma lagrima escorreu.

Mas a vida não perde o sentido de uma hora para outra, há a fagulha que acende no peito, trazendo excitação, vontade de mudar ou se arriscar, e mostrando igualmente que existe algo errado. Quando a mudança não é algo possível, ou viável, sentimos a chama se apagar, muitas vezes ignorada. A partir dai algo muda na forma que vemos a vida. Pessoas, roupas, joias ou lugares, todos perdem o sentido. Nos tornamos egoístas porque não conseguimos nos imaginar ao lado de outro ser humano, ninguém nos compreenderia. E pensar na dor dos outros só nos torna ainda mais imprestáveis. Surge um certo sentimento de superioridade, como se os outros fossem tão medíocres, a ponto de não valer a pena interagir ou criar laços. Ela se sentia inútil, com tantos pensamentos que não se encaixam com os de ninguém.

Skye tentou se mexer, mas o quarto era gelado, e as roupas largas do hospital, desproporcionais ao seu tamanho, a faziam sentir mais frio. Continuava enroscada no chão, fechada em seus pensamentos. Entre eles, lembrou do quanto queria aprender uma língua nova, Alemão sempre foi sua paixão. Lembrou que tinha deixado vários livros em casa que gostaria de ler, e tantos outros que queria comprar. Lembrou de um antigo relacionamento, se é que poderia chamar de relacionamento, em uma fase ruim da sua vida, mas quando suas ideias mirabolantes, planos sem sentido ou criatividade para enfrentar problemas eram vistos por ele com admiração. Lembrou de todas as pessoas que a admiravam, sem que ela nem mesmo imaginasse se não tivessem dito. Lembrou das palavras de um amigo: “você definitivamente não se vê como realmente é.”

Isso acendeu algo em Skye, logo um pequeno sorriso despontou de seus lábios. Ela esqueceu o frio e ficou de pé. Já não era mais aquela garota de ombros baixos, agora estava determinada, cabeça erguida. Essa dor insuportável, a incompreensão dela mesma sobre seus sentimentos ainda estavam presentes, isso não é algo que desaparece assim tão fácil. Mas dessa dor ela encontrou uma nova e boa razão para continuar vivendo.

Nesse momento o médico abriu as portas do hospício para Skye e disse:

– Você está pronta para ir, finalmente você entendeu o sentido da vida.

Reabilitação – Em busca de um mundo [sem] internet – Dias 4-5

Nada nunca é o que parece

Acordei ouvindo gritos. Uma forte dor no estomago se transformou em um enjoo e tive que correr para o banheiro pra vomitar. Mais sons de gritos abafados, portas batendo e minha cabeça rodando. Quando finalmente levanto do chão me olho no espelho e vejo hematomas em meu rosto, pelo jeito em processo de cicatrização, o que significa que faz algum tempo que me machuquei.

Os barulhos cessaram.

Logo uma enfermeira bate na porta do quarto e vai entrando. Se apresentou como Doria e tinha uma voz doce e tranquila. Calmamente pediu que eu sentasse na cama e sem que eu dissesse uma palavra ela começou a dar explicações.
Veio saber como eu estava, disse que eu poderia sair do quarto para passear assim que me sentisse melhor. Me mostrou um panfleto com várias atividades que a clínica oferecia. Falou sobre cada uma delas, as regras, e ao final contou sobre o dia da “lobotomia”.
De acordo com a enfermeira, cai da escada quando descia para o refeitório e machuquei muito o rosto e a cabeça. Fiquei no pronto socorro da clinica, ontem, em observação.

A minha vontade era surrar a Doria. Desde que cheguei fui drogada e apaguei por vários dias, não me alimentei direito e agora estou machucada e passando mal. Mas pensando bem, a essa hora eu provavelmente estaria sentada de frente para o computador ao invés de viver uma aventura como essa. Já estava prestes a pegar meu iPhone pra twittar sobre isso, quando lembrei do óbvio. Doria viu quando tentei pegar o celular imaginário no bolso traseiro da minha calça e riu. Maldita.

Parabéns querida, esse é seu 5° dia conosco, sem emails, redes sociais, ou dias de ócio enfrente ao computador. – Disse ela.

Então a idiota se retirou. Assim que fiquei sozinha reparei que estava cheia de picadas nos braços, talvez fosse do soro e algum outro medicamento. Encontrei a mala que meus pais fizeram com as minhas roupas e alguns cosméticos. Vesti qualquer coisa, amarrei o cabelo, coloquei os óculos e desci atrás das atividades do panfleto. Mas voltei para trás, tinha esquecido de tomar um banho e escovar os dentes, o que é outro ponto positivo desta aventura, porque eu nunca tinha a chance em casa, graças a internet. Agora sim, vamos lá.

Cheguei no pátio, o qual me apresentaram rapidamente no 1° dia. Perto da escada tinha um quadro gigante com o desenho de um notebook e alguns gadgets pingando sangue, ao lado de um cabo de rede picotado. A moldura era toda trabalhada em detalhes, e parecia ser de ouro.

Havia varias mesas e poltronas confortáveis por todo o lugar, algumas estantes com livros e uns filmes que poderíamos assistir na cinemateca. Resolvi folhear uns livros, ia buscar um café mas eles só serviam chá de camomila e suco de maracujá, mas todas as bebidas tinham uma cor meio turva. Cigarro então, nem pensar.

Peguei um livro, as páginas estavam em branco, devolvi na estante e escolhi outro. A mesma coisa aconteceu, descobri que eram apenas capas, sem conteúdo. Comecei a observar as pessoas, a maioria lendo, caminhando, alguns voltando da corrida e outros até flertando timidamente. Nós somos um grupo misto.
Entre tantas pessoas, algumas se destacavam, andavam como zumbis babando e se arrastando pelos cantos do pátio e árvores no gramado.

Eram poucos, uns 3 garotos e uma menina, que logo foram retirados do local por alguns enfermeiros que os seguravam rindo e sorrindo forçadamente para os demais, como se não fosse nada demais aquilo.

Notei naquele instante que alguns médicos nos observavam de uma salinha ao lado da cinemateca. Um deles parecia irritado e fez sinal para um enfermeiro do lado de fora, que foi em minha direção. Fiquei sem reação, não sabia o que fazer, quando o outro enfermeiro, aquele que me avisou da lobotomia imaginária, apareceu.
Segurou gentilmente minha cintura e me mostrou o livro que estava lendo, completamente em branco, mas apontava para as “palavras” e sorria para mim. Chegou mais perto, ele tinha um perfume tão bom, e sussurrou: Finja que está lendo ou vai se transformar em coisa pior que aqueles zumbis…

Continuação da crônica na página Strange Times.

Pobre Jason

Jason estava desanimado. Com essa onda de zumbis e vampiros ele vinha perdendo a popularidade, já foi confundido com Freddy Krueger inúmeras vezes, as pessoas sempre trocavam seus nomes, com cospobre dele mesmo e, recentemente com um mendigo bêbado.

Chega, pensou Jason. Essa noite será diferente, mostrará ao mundo que estava de volta.

Tomou um banho quente, vestiu trajes pretos, uma camisa de seda, calça jeans preta e um sobretudo feita sob medida. Pensou em fazer a barba, mas lembrou que tinha o rosto desfigurado e não precisava mais. Ah, menos trabalho pra mim, disse ele.
Pegou o cartão de crédito e as chaves de casa e do carro, o mp3 com uma longa playlist dos anos 80 e guardou tudo nos bolsos do sobretudo. Afiou um belo facão de sua preciosa coleção. Correu para a garagem e deu partida no velho carro que havia roubado de uma família.

Andou por uns 20 minutos até que avistou um casal bem jovem caminhando. A rua estava vazia, e era escuro o suficiente para criar o clima de terror que ele queria. Estendeu a mão para o banco de trás do carro, tentando pegar o facão, mas na pressa não se deu conta de que pegou um sabre de luz, brinquedo do filho do casal que era dono do carro. Desceu do carro e os seguiu até passarem por um parque. Encurralou os dois ali, derrubou a garota no chão e encostou o rapaz na parede, pressionando o facão contra seu pescoço. O impacto apertou o botão e o sabre de luz se acendeu.

Totalmente desconcertado conseguiu apagar a luz do brinquedo e o jogou longe. Pegou uma faca reserva que mantinha presa na meia. Tentou dramatizar a cena o máximo que pôde, mostrando que não estava de brincadeira. Pretendia deixar a garota livre para contar aos outros. Então o garoto começou a observá-lo, como se o estivesse reconhecendo, quase dizendo seu nome. Jason estava ansioso por ouvi-lo.

– Espera. Você usa uma máscara, sua respiração é ofegante, você está vestido de preto…

– Sim, continue, pensava Jason.

– Está com uma espécie de sabre de luz…

– O quê, não eu…

– Você é o Jack Estripado? Aquele lá, filho do Darth Vader né? Mano, esse cara é da antiga liga da justiça.