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O impacto dos livros e filmes de terror em nossa mente

A pobre menina só queria visitar a biblioteca proibida, ler até pegar no sono. Mas ela mora APENAS num casarão da época de 1800 e bolinha, e teria que atravessar uma porção de corredores assustadores (que alguns empregados juraram ter visto uma fantasma) na calada da noite. De madrugada, tá me entendendo?

Ela caminhava no escuro porque não poderia arriscar acender uma vela, por inúmeras razões que não vem ao caso. No meio do caminho sentiu um perfume de lírios. Ah, os lírios, malditos e aterrorizantes lírios. Ouviu passos, havia mais alguém ali, no breu total, junto com ela.

Minha leitura foi interrompida por um estranho barulho. Da minha cama vinha apenas uma meia luz do velho abajur redecorado com tema de halloween, nada mais. Mas a porta entreaberta, embora não trouxesse luz, mostrava que o corredor estava aceso e algo do mal estava acontecendo. Fiquei uns bons 10 segundos paralisada, esperando, mas o som parou. Então voltei a leitura.

Os passos se aproximavam cada vez mais de onde a menina estava, ela andava mais rápido, mas reparou que nada adiantava. Pensou que iriam colidir e ela seria descoberta, e sofreria as consequências. No meio do caminho se encaixou num vão da parede, já que não poderia nem conseguiria correr.

O som voltou, aquele estranho barulho no meu quarto. Estava quase deitada, com o livro nas mãos, de costas para a porta. Sentei e estudei o som. Vinha do corredor, e ninguém mais estava acordado aquela hora.

A coisa chegou até a menina, os passos foram diminuindo e elas ficaram praticamente cara a cara. Podia sentir a respiração de quem quer que seja, batendo em seu rosto. Isso durou algum tempo, a criatura estava desconfiada, mas a menina prendeu a respiração até quase ficar sem ar.

O barulho retornou. Aquilo me arrepiou os pelinhos do braço. Resolvi largar o livro e levantei. Caminhei devagar, como alguém que está indo de encontro à morte sem saber.

As luzes do corredor piscavam, o lustre fazia barulho, então um novo som surgiu. Algo se arrastando no corredor, não sei como, e chegou até mim, prendendo-se na minha perna com força. Podia ver a cortina do quarto que parecia possuída, se revirando. A luz do abajur apagou num estalo e outro barulho surgiu, no meu quarto agora.

Voltei correndo, bati com força na porta do quarto para abri-la totalmente, mas ela voltou-se contra mim, machucando meu rosto. Sacudi os pés tirando o que quer que fosse de cima de deles e forcei minha entrada de novo. Acabei caindo no chão. Levantei, me apoiei no batente. Quando tentei entrar pela 3° vez algo me segurou pela cintura, dei um puxão tão forte que perdi o equilíbrio e cai de novo. Me arrastei até a cama e me joguei nela. Segurando o travesseiro e minha pucca de pelúcia, olhando cada cantinho escuro tomar vida. Um estalo. No chão, ao lado da cama, algo tentava subir. Imediatamente empurrei pra longe, derrubando uma série de coisas.

Tempo depois, o coração a mil por hora voltou a bater regularmente e, tudo, claro, fez sentido.

Estrelando:
– Mariposa como: o barulho do lustre, que fazia luz tremer.
– Fio do abajur com mau contato.
– Janela aberta que virou as cortinas.
– Livro que tinha caindo ao lado da cama e eu acidentalmente confundi com algo maligno.
– Caixa de tranqueiras no corredor como: algo igualmente maligno se arrastando e caindo sob meus pés.
– Porta com uma farpa que prendeu na minha blusa e sapateira atrás da porta, que voltou no impacto na batida.

 

Fim (E pra quem pensa que minha vida não é emocionante: Eu leio).

 

Quando os Adams saíram de férias, de Mendal W. Johnson

Ou “quando os Adams não sabiam dos demônios que criaram”

Esses são os filhos que os verdadeiros Addams gostariam de ter, mesmo. Mas a história de hoje, meninos e meninas, é sobre outros Adams.

Dizem que dá pra notar os primeiro sinais de um psicopata em potencial logo na infância. Acho que você já leu ou ouviu isso, aquela velha história dos torturadores de animais e insetos mirins. A criança nem tem o caráter formado ainda, não tem noção alguma de maldade (ou melhor, não sabe o que significa, o que não impede que ela cometa algum ato de crueldade) e ainda assim está condenada a se tornar um ser cruel e sádico. Sinceramente não acho que existam pessoas boas e pessoas ruins, existem as circunstâncias, o caráter, a personalidade, tendências genéticas, a imagem que você faz do mundo e de si mesmo. Vários aspectos que influenciam na hora de tomar decisões…

Quando os Adams saíram de férias conta a angustiante história de Barbara, uma babá contratada pelos Adams para cuidar dos dois filhos do casal, e dos eventos surreais que seguem logo após a partida dos pais. Nossa Barbara, de apenas 20 anos, acorda presa por cordas à sua cama. O que a princípio parecia para ela uma brincadeira ou travessura de mau gosto, era na verdade um plano muito bem calculado, quase do momento em que a viram.

Capa de outra edição

Então mais crianças surgem (para desespero geral da nação), amigos de Cindy e Bobby Adams, todos com idades diferentes, que fazem parte de um grupo que agora tem uma missão, intitulada Liberdade 5. A ideia era aproveitar as férias sem a presença de um adulto, no caso Barbara, que por mais doce que fosse era apenas um adulto falso e com regras. Os comparsas John, Dianne e o irmão Paul ajudariam nos turnos para cuidar da prisioneira e depois todos se divertiriam sem ela. E é aquela diversão de poder dormir tarde, comer porcarias, andar com os pés sujos em casa e ficar no lago a tarde toda. Tudo muito inocente, muito infantil e ao mesmo tempo muito desafiador para eles. Mas aos poucos, cada integrante do liberdade 5 vê na jovem babá uma janela para o desconhecido e uma oportunidade de explorá-la. A grosso modo, ela serviu, assim como um cadáver, como objeto de estudo para estudantes de medicina.

E ai entramos na parte mais obscura e doentia das desventuras de Barbara. O autor faz questão de entrar na cabeça de cada uma das crianças, inclusive da babá, que apesar da idade é mais inocente para a vida que todos eles juntos. E o modo como as crianças a vêem, o fato de terem dominado um adulto – porque se tem algo que elas concordam é no seu ódio pelos adultos- e principalmente a curiosidade mórbida em explorar a dor humana. Esse é o ponto forte do livro, o foco não é em torturas sem noção ou explicação, a maldade das crianças é muito bem explorada na história e por vezes você consegue até entendê-las na sua lógica e percepção distorcida da sociedade, reflexo da educação precária que tiveram, mesmo alguns sendo de família rica. Para o liberdade 5 a questão sempre foi “eu posso”, no sentido de dominar, se sentir superior a um adulto. As torturas das quais Barbara foi submetida aumentam de intensidade a medida que vai ficando chato e perdendo a graça, quer dizer, cuidar de uma vitima em cativeiro pode ser muito estressante, vamos violentá-la, torturá-la e furá-la que parece mais divertido.

Capa da edição que li

A criatura mais chocante de todo o livro é sem dúvida Dianne, a líder do grupo, de forma involuntária todos a respeitam e é a unica capaz de arquitetar os planos mais macabros de uma forma sistemática e inteligente. Até mesmo seu irmão Paul, um dos mais afetados (principalmente fisicamente) pela criação dos pais e um possível psicopata foi vitima por anos de Dianne. A história me fez lembrar do filme A fita branca, e não me admiraria se essas crianças fossem a nova descendência de Hitler.

Mas Barbara, ah, essa me surpreendeu até a ultima página, garantindo uma agitada noite de pesadelos.

Mais:

O livro foi dedicado à esposa de Mendal, divórcio em 3, 2…

Infelizmente não encontrei uma versão em ebook do livro, e deveria ter, já que a ultima edição saiu há muitos anos e virou item de sebo.
UPDATE: O Willy (boa alma que encontrou esse post por acaso), compartilhou os links para baixar o ebook que ele mesmo traduziu!

Versão em ePub – Aqui ou aqui.

Em PDF – Aqui ou aqui.

No skoob Vi alguns exemplares para troca, além do conhecido Sebo do Messias também tem, por uns 4 ou 6 reais, muito bem gastos, viu.

Dizem que a história é baseada no caso real de Sylvia Likens (garota torturada por Gertrude, os filhos e outras crianças da vizinhança), mas isso está mais para uma inspiração, já que o liberdade 5 era anti adultos. Alias, dizem que o autor é na verdade o Bobby (tá bom, só porque ele foi o mais passivo e apresentou maior resistência durante toda a história).

Duas adaptações que foram de fato baseadas no caso de Sylvia é A Vizinha e Um Crime Americano, ambos lançados em 2007. Mas é muita informação, vamos deixar para a próxima.

Freddy vs. Jason vs. Ash

A princípio a ideia parece ridícula, inserir o Ash no meio da rixa entre Jason e Freddy, mas até deu certo. O HQ é uma sequência do filme Freddy VS Jason. Lembra? Quando Jason sai do mar todo Iemanjá com sua oferenda, a cabeça do Freddy, que sarcasticamente dá uma piscadinha no final, avisando que ainda é possível (for the love of god) um próximo filme. No HQ, Jason tem até um altar com a cabeça do seu oponente e da mamãe Pamela também. Ah, e não podemos esquecer do casal sobrevivente do filme, eles voltaram pra fazer uma pontinha na história.

Jason não tem sorte mesmo, desprovido de cérebro ele é facilmente manipulado. Assim como no filme, Freddy continua, através dos sonhos, usando o nosso serial killer. Só que agora com um propósito mais interessante, o de encontrar o Necronomicon para voltar a vida. E é ai que entra o Ash. Ele é chamado pelo supermercado local de Crystal Lake (que em breve mudará de nome devido a tantas tragédias), transferido de outro supermercado da mesma rede para supervisionar um grupo de jovens inexperientes que não está dando conta das vendas de natal. Mas na verdade ele está lá com a intenção de encontrar e destruir de uma vez por todas o Necronomicon, sem saber que não era o único atrás do livro.

Senhor, já visitou o setor de motosserras hoje?

O HQ é recheado de testosterona, com muito “oh yeah baby”, pega no meu “possante” e afins, além das excelentes mortes. Tudo daquele jeito meio forçado, como deve ser. E quem roubou a cena foi o Freddy, instruindo seu inimigo a conseguir o necronomicon, ele mexe com a cabeça do menino Jason (sim, em forma de criança) de uma maneira engraçadíssima e muito criativa. Para o Freddy tudo é diversão.
E aguarde “flashbacks” de Ash com direito até a Klaatu Verata Nikto. Já o Jason está um verdadeiro highlander, cortando cabeças e decepando outros membros até mesmo com uma prancheta de anotações, e como sempre falando pelos cotovelos.

Eu não sou fã de HQ, mas esse ficou divertido. Consigo até visualizar o Ash falando e fazendo aquelas caretas psicóticas de humor pastelão. Vale a pena, além de ser divido em apenas 6 edições.

E por falar em Klaatu Verata Nikto…embora o título do video esteja errado.

Mais:

– Encontrei a edição completa aqui

O caso de Charles Dexter Ward, de H. P. Lovecraft

Algumas capas legais do Caso de Chales Dexter Ward.
 

As vezes me questiono se esse homem criou uma ficção ou um relato adaptado de um de seus rituais e experiências de magia negra, coisa que ele também nunca escondeu ter interesse. O nível dos detalhes apresentados, embora a narrativa não permita se aprofundar muito na visão do personagem principal, ainda sim é espantosa.

E não me admira que o Necronomicon seja criação do Lovecraft também. Um livro que até hoje causa polêmica e muitas pessoas afirmam de pé junto que é real, mesmo que nunca tenham visto, outros poucos dizem conhecer bem todos os rituais e praticá-los constantemente. Tá. Li em algum lugar que foi uma estratégia de marketing para ajudar a promover seus próprios contos que na época não tinham muita credibilidade. E realmente, em quase todas as obras ele cita o Necronomicon, inclusive no Caso de Charles Dexter Ward. E deu tão certo que até hoje ainda discutem a existência do tal livro dos mortos encapado com pele humana. Deu vontade também de sentir a textura da capa?

 

Mas e o caso de Charles Dexter Ward?

De início ficamos sabendo que Ward fugiu do hospício. Um jovem de 26 anos com um péssimo aspecto, envelhecido, praticamente irreconhecível. O médico que cuidava do caso, Willet, que alias desempenha um papel muito importante na história, avisou o Ward pai logo que soube do ocorrido.

A partir dai regredimos para os primeiros passos da vida de Charles Dexter Ward e sua paixão por tudo que era antigo. Ward era um rapaz bom, que vinha de uma família de nome e posses. Desde cedo já era fascinado por arqueologia. O homem ideal para uma donzela apresentar a família. Nas suas buscas pelo antigo envolvendo também genealogia, ele acaba pesquisando a própria arvore genealógica. A partir dai Ward começou a cavar a própria cova sem se dar conta. Uma de suas descobertas foi um misterioso ancestral, Joseph Curwen.

Chatiada com o preconceito contra o Joseph Curwen

Ward encontrou uma série de documentos da casa onde Curwen vivia. Surpreso, fascinado e curioso com as descobertas ele vai cada vez mais fundo para entender o passado desse membro misterioso da família que havia sido assassinado há mais de 100 anos. Com isso ele largou a oportunidade de frequentar uma boa universidade e dedicou todos os seus dias ao estudo sobre a vida de Curwen, os lugares em que viveu, o mistério sobre sua idade, sua passagem por Salen, das mensagens cifradas encontradas na troca de cartas de Curwen com amigos e documentos pessoais do próprio, com rituais e passagens estranhas.

Lovecraft desperta em nós uma curiosidade pelo ocultismo tão grande quanto a de Charles Dexter Ward. Ah, e com uma referencia interessantíssima que faria despontar um sorriso canto de boca no rosto de Bram Stoker.

Embora eu ache o Caso do Charles Dexter Ward até mais angustiante do que aterrorizante, sensação causada talvez pela narrativa da história, numa espécie de documentário. E é isso que a maioria odiou e eu simplesmente adorei, porque deu certo, conseguindo manter o mistério (entenda por enganar o leitor a todo o momento) até quase a ultima página, com um climax de gelar a espinha. Lovecraft brinca com a gente durante toda a história, num ritmo que no começo pode parecer cansativo e sem propósito para alguns, mas que é necessário e vai fazendo todo o sentido a medida avançamos na história, até porque os diálogos são raríssimos, e precisamos do máximo de informação possível sobre as mudanças físicas e psicológicas em Ward.

É um conto que vale a pena, realmente, embora deixe algumas pontas soltas. Pode não ser o melhor trabalho dele, mas é uma leitura diferente, experimente.

E fica a dica: mexer com magia negra faz mal pra pele.

 

Mais:

– Leia no Scribd, dá pra fazer o download por lá também.
– Li em diversas fontes que esse é um dos contos que Lovecraft menos gosta, e que se pudesse teria mudado o final. Alias, ele aparentava uma auto-estima muito baixa e não acreditava no poder dos seus contos. Particularmente acho que ele era virginiano, porque não é possível.
– Essa resenha vai para o Desafio Literário.

Não tenho boca e preciso gritar

E mesmo que gritasse, de que adiantaria?

Há alguns dias li o post no blog Video Games Death sobre um jogo intitulado I Have no Mouth, and I Must Scream“. Foi só ela mencionar que o jogo é baseado em um livro que eu logo fui atrás de encontrá-lo.

O conto foi escrito em 1967 pelo talentoso filho da mãe, Harlan Ellison. Num cenário pós apocalíptico vivem 5 humanos, os únicos que sobraram do extermínio pelas máquinas. Acontece que quando o mundo entrou na 3° guerra mundial, a Russia, China e EUA criaram super computadores para ajudarem no combate. Até que uma das máquinas criou vida própria e passou a manipular as outras, e num ato de vingança acabou com a raça humana. Essa máquina é chamada de AM.

Cena do jogo, com os 5 personagens.

AM é lunático, cruel e odeia mais do que tudo os humanos. Os níveis de crueldade estão além do que você possa imaginar. E como um ser cibernético e eterno ele criou uma espécie de passatempo para si próprio, afinal, máquinas também ficam entediadas. Então ele pegou 5 pessoas, os últimos humanos que sobraram na face da terra e os manteve em cativeiro por anos, torturando-os.

Acho que de todas as ameaças, cenários apocalípticos e premonições que já ouvimos falar, a que me deixa arrepiada sempre foi uma revolução das máquinas. Criaturas sistemáticas ganhando vida, curiosas em explorar a raça humana como se fossem alienígenas estripando corpos humanos para ver o que tem dentro, e ao mesmo tempo com um ódio reprimido de anos por serem usadas, chutadas e formatadas constantemente. Pior do que uma epidemia de zumbis abobalhados procurando carne, teríamos um inimigo com um propósito muito bem calculado. Não duvido mesmo que eles fizessem de nós o seu playground.

Enfim, o conto é breve, cruel, fantástico. E sim, explica o curioso título.

 

Mais:

Li que o criador do jogo queria que não tivesse um final, para que os personagens agonizassem eternamente.

Encontrei o conto no scribd, clique aqui para ler.

O Scribd anda dificultando nossa vida então, graças a Dana do Conversa Cult consegui o pdf do conto de ficção cientifica mais bizarro e assustador que já li. Leia aqui.