Categorias: Contos

A caçada de Rolan

Imagem: Apocalypse

Como um dos vampiros mais antigos Rolan já tinha visto e passado por muita coisa, mas nada se comparava ao cenário apocalíptico em que vivia nesses últimos anos. Como se já não fosse difícil suficiente buscar sangue fresco, ainda precisava se proteger de uma nova ameaça. Os vampiros passaram a se unir em pequenos grupos, ninguém mais andava sozinho, nem os homens, nem vampiros, alguns até mantinham alianças, todos lutando contra os zumbis. Onde havia um morto vivo com certeza havia milhares por perto, a infestação tomou proporções catastróficas.

Alias, os vampiros eram um pouco dos dois mundos. Apesar de fortes e resistentes, sentem dor e fome como os humanos, não viram pó ao serem mortos, e ao mesmo tempo não deixam de ser mortos vivos como os zumbis, sem alma.

Rolan ajudava uma pequena colonia de humanos que construíram um forte ao redor de uma fazenda abandonada. Em troca eles ofereciam quantidades generosas de sangue de alguns voluntários. Mas a comida era escassa, a terra não era boa para a plantação e estavam passando fome. Muitas pessoas sofriam de anemia, os mais forte deixavam alimento para os menores, era a unica coisa que podiam fazer. Com isso o suprimento de Rolan também estava comprometido. Sem ver outra alternativa, aceitou a sugestão dos humanos de sair em busca de alimento, garantindo assim o seu próprio.

O homem que comandava a colonia lhe entregou um mapa feito com a folha de um caderno, que indicava os pontos onde haviam lojas e algumas casas, possivelmente com um bom estoque de comida enlatada. Todos contavam com ele, e apesar de negar, Rolan se importava com aquela gente como se fossem sua própria família, uma estranha porém unida família.

Passou dias em busca de alimento, sempre se guiando pelo mapa. Preferiu evitar confronto com os zumbis que encontrou no caminho. Estava muito fraco para uma batalha. No 5° dia chegou perto de uma loja abandonada, a unica que parecia não ter sido saqueada ainda. Tudo calmo demais, organizado demais. Assim que se aproximou sentiu um cheiro estranho, uma mistura de suor com outro aroma muito forte, não conseguia identificar, mas imaginou que pudesse encontrar algum sobrevivente. Apesar do pressentimento ruim, entrou na loja.

Foi surpreendido por 9 homens altos e extremamente fortes. Um deles lançou de longe uma flechada na barriga, seguida de outras que atingiram estrategicamente várias partes de seu corpo. Os outros cinco continuavam o trabalho de imobilizá-lo prendendo seu corpo na parede com facões. Era uma dor dilacerante que há muitas décadas não sentia, efeito da sua atual desnutrição. Sem se alimentar era uma presa fácil.

Não teve tempo de explicar, nem mesmo pedir que parassem. O homem que segurava o arco o trocou por um facão afiado. Se aproximou dele e começou a retalha-lo como uma açougueiro, possivelmente essa devia ser sua antiga profissão. Alguns homens cobriam o rosto ou desviavam o olhar. Rolan gritava enquanto lhe serrava as pernas, depois os braços. Puxaram da parede o resto do corpo ainda com vida e o jogaram no chão. Lhe deram uma machadada na cabeça, para o fim da sua agonia. O trabalho continuou em silêncio.

Depois, alguns homens se reuniram próximos aos pedaços de Rolan. Um deles deu uma ordem:

– Avise a colonia que mandaremos os suprimentos necessários conforme o combinado – disse ele.

Outros embalaram os pedaços e encheram alguns potes de sangue. Eles eram parte de um grupo muito maior de pessoas, que no momento precisavam se locomover para outra instalação. Mas para isso necessitavam de uma grande quantidade de carne e fluídos, suficiente para distrair os zumbis. Infelizmente para Rolan, ele tinha tanto valor para aquelas pessoas quanto um zumbi. E de acordo com as colonias, qualquer coisa que não fosse humana era oferecida em troca de alimento entre eles.

De volta a realidade

Estava de pé, imóvel, olhando o fogo consumir sua casa. Sacudiu a cabeça na tentativa de voltar os pensamentos para aquele momento. Começou a procurar pela esposa e a filha. Viu um corpo no chão, o braço esquerdo estendido em direção ao fogo que vinha rápido. Stefano correu, desviando dos escombros que caiam, pulou para sala perdendo o equilíbrio indo direto para o sofá. Por sorte encostou numa parte que o fogo ainda não havia consumido, mas não percebeu que suas botas estavam pegando fogo. Começou a se debater, tirou a jaqueta e bateu nos sapatos até que apagasse tudo.

Voltando sua atenção novamente para o corpo da esposa que estava logo próxima ao sofá, usou a jaqueta para segurá-la e cobri-lá. Foi em disparada até a porta da frente, chutou duas vezes com toda a força enquanto segurava a esposa, a porta logo cedeu, grande parte já estava destruída pela incêndio. Andou pelo jardim batendo a bota que havia pegado fogo novamente, mas ele já não se importava, deixou que o grama que pisava cuidasse disso.

Assim que deitou a esposa começou a respiração boca a boca em seguida massageando seu torax. Helena tossiu profundamente após a 3° tentativa de Stefano. Ele sorria como uma criança, fechou os olhos como quem está agradecendo. Mas logo se lembrou de Dalia, sua filha de apenas 6 anos. Não havia tempo para conversar, deixou Helena a salvo no jardim e voltou para as chamas.

Apavorado, não escutava nenhum som que pudesse indicar que Dalia estava viva, talvez tenha desmaiado. Atravessou a sala correndo e desviando das labaredas, subiu as escadas pulando os degraus em chamas. Chegou ao quarto de Dalia, a porta estava aberta, mas não viu a menina.

– Pai – gritou ela.

Quando Stefano virou viu a filha no quarto do casal, agachada ao lado do armário segurando a blusa do pai. Ele foi em sua direção e a envolveu na blusa cobrindo bem sua cabeça. Agarrou Dalia por um minuto, em silêncio, sem conseguir segurar as lágrimas que escorriam do seu rosto. Se sentiu o homem mais feliz do mundo, seu peito queimava de dor, ao mesmo de alegria.

Conseguiu sair da casa com ela e encontrou Helena já de pé, olhando com alegria ao ver que ambos estavam bem. Stefano colocou Dalia no chão e ela correu para a mãe. Enquanto via as duas se abraçando só conseguia chorar e sorrir para elas.

A imagem foi se desfazendo, como hologramas com defeito, Helena e Dalia sumiram, o fogo acabou, a casa desapareceu e só o que ele via era escuridão. Tirou os óculos do rosto, puxou os fios que prendiam em seu corpo, tirando também os que monitoravam os batimentos cardíacos. Os olhos estavam vermelhos, e o sorriso tinha ido embora. Stefano nunca conseguiu resgatá-las do incêndio. Reviver aquele momento e ter a chance salvá-las era tudo o que a tecnologia e sua habilidade lhe permitiam fazer, todos os dias…

Zumbi subject 117A

117 semanas se passaram e já não é de hoje que notamos um comportamento estranho nos zumbis. Corremos riscos mas fizemos estudos de campo além de várias capturas durante os últimos 3 meses em busca de cobaias. Aparentemente, e por mais incrível que possa parecer, alguns se mostravam mais agressivos que o normal, outros pareciam que tentavam falar. Mas todos morriam dias depois, deixavam de apresentar atividade cerebral, como se tivesse levado um tiro certeiro na cabeça. Por semanas tentamos entender a causa, era como se estivessem tentando fazer alguma coisa e algo saiu errado. De qualquer forma guardamos os corpos.

Mas, entre tantas cobaias uma nos chamou atenção de início. A subject 117A, que resistiu aos tratamentos e tem mostrado certa excitação e entusiasmo quando me vê. Ela não devia ter mais de 30 anos, seu corpo ainda mostra jovialidade, e o rosto, apesar de ter a face esquerda desfigurada percebe-se que era apenas uma moça. Seus olhos se tornam mais vivos a cada dia, mudando a coloração de volta ao normal, e perdendo aquela aparência vazia. Alguns outros zumbis passaram por isso, mas logo no inicio morreram, ela não. Temos tudo documentado, só mesmo assistindo aos videos e observando as fotos para acreditar. Embora ela não responda a nenhum outro estímulo por enquanto, algo em seus olhos demonstra o contrário do que deveria ser um zumbi.

A subject 117A é realmente diferente. Por isso resolvemos tentar explorar seu psicológico e ver se é possível que ela demonstre ter consciência de alguma coisa.

Cheguei bem cedo, hoje é o primeiro dia dos testes psicológicos, tentarei me comunicar com ela, e estou muito ansiosa. Peguei meu café e entrei na sala blindada. 117A estava presa com grossas argolas de metal que vinham do chão e da parede a suas costas. Concordamos que ela não tomaria nenhum sedativo. Sentei a sua frente aproximando a cadeira da mesa, levei uma pasta com algumas fotos e fui aos poucos mostrando a ela, uma por uma. Eram fotos de crianças, famílias, namorados e algumas pinturas. Ela observava cada uma claramente, com muita atenção, e totalmente controlada. Soube que era o momento certo para iniciar um diálogo.

– Você gostou de alguma dessas? Escutei apenas um grunhido.

Puxei junto com a pasta uma pintura que meu filho fez dia desses, era um monstro que mais parecia um demônio. Guardava a pintura justamente para conversar com ele sobre isso, mas resolvi mostrar para a 117A.
De repente um sorriso se formou em seu rosto. Eu estremeci e larguei o desenho por um minuto ajeitando os óculos e tentando me recompor, aquilo foi perturbador. Novamente levanto o desenho e pergunto, tentando parecer o mais calma possível:

– Você gosta? E então acontece o impossível, ela responde:
– Somos uma legião terrena agora. Vocês nos proporcionaram isso. Quem desenhou este? Ele deve nos conhecer bem por debaixo dessa carne podre.

Segurei o ar por mais de um minuto. Meus colegas viram através do espelho da outra sala, tentaram interferir, por medo talvez, mas eu acenei para que me deixassem com ela. Continuava:

– Corpos em decomposição não são exatamente o tipo de coisa que imaginávamos usar, mas graças a vocês isso foi possível e pudemos passar para este plano. E mais virão, muitos mais – fez uma pausa para respirar e engolir a bola de saliva que se formou em sua boca. Mas o sorriso ainda estava lá.

– Isso é só o começo…

Sisi Strange #1

Sisi é o resultado do meu amor pela Emily Strange. Pretendo, se minha mente assim permitir, criar uma série de contos sobre a estranha senhorita Sisi, e sua busca por algumas respostas, como por exemplo: “Eu sou real?” ou “golens existem?”

Era de se esperar que ela se mudasse para um lugar tão estranho, suspeito e potencialmente perigoso para uma menina de 12 anos.
A casa nova mais parece um mausoléu. A construção é antiga, daquelas que são consideradas praticamente um monumento histórico. Um gárgula na entrada era o que faltava para incrementar a decoração do lugar, o que na minha opinião, e na de Sisi, ficaria perfeito.
Mas não era nada tão extravagante, o suficiente para que ela, seus pais e cães vivessem confortavelmente, sobrando espaço para algumas visitas nos 2 quartos vagos que restaram.

Depois de colocar as caixas com seus pertences no quarto, Sisi resolve fazer uma expedição pela casa, afinal, se ela vai passar a noite ali precisa saber com o que está lidando.

Após a tarde de explorações e cuidados com os cães, chegou a hora do jantar. Sisi e seus pais se sentam juntos na sala de jantar, algo que nunca tiveram antes em sua pequena casa. A comida congelada já estava pronta e era hora de atacar.

Ela sempre terminava primeiro, mas dessa vez fez questão de demorar, e aproveitou esse tempo para observá-los. As vezes ela jurava que eles não eram humanos, o modo que mastigavam a comida não era humano, seus olhos se reviravam de forma descontrolada e em direções diferentes, isso não é nada humano. Em alguns momentos ela coçava os olhos esperando por uma imagem que fizesse sentido e notava que um liquido azulado ameaçava escorrer da narina deles, e isso, definitivamente não era humano.
Era como se seus corpos estivessem reagindo a algum condimento da comida, na verdade ela já tinha se acostumado com aquilo, e entendia que, as vezes, comer podia ser um sacrifício.

Como se eles fossem golens, criados por alguém que não ela, para executar tarefas comuns da forma mais normal possível.
Sisi ordenou que eles fizessem sua cama uma vez, eles a olharam feio e a deixaram de castigo no quarto, sem dúvida eu não os criei, pensou.

No dia seguinte, Sisi acordou bem cedo e se preparou para cuidar da casa. Seus pais já tinham saído, para… trabalhar talvez? Golem trabalha? Enfim, ela ficou incumbida de limpar e arrumar tudo, sozinha.
Quando se deu conta já eram quase 3 da tarde, e lembrou que não tinha almoçado.

Foi para a cozinha e levou junto o notebook e sua agenda. Colocou ambos na mesa, em um cantinho próximo ao corredor para a sala, onde ficava o computador central e internet instalados. Desde a mudança esqueceu de comprar outro roteador sem fio e por isso precisava andar pela casa com um cabo de rede. Pensou em redigir um trabalho da escola enquanto comia.
E enquanto conectava-se a internet cabeada foi pensando no poderia preparar para comer.

Ao lado mesa ficava um armário gigante e muito velho, que já estava na casa quando chegaram. Em meio a bagunça de caixas avistou o pote de arroz na primeira prateleira. Se virou em direção a cadeira mais próxima à mesa, e a arrastou até o armário sem prestar atenção no cabo de rede que se prendeu a cadeira.

Assim que subiu na cadeira o notebook foi para o chão devido ao puxão do fio. Sisi acabou de pegar o pote quando olha assustada para a mesa, e no desespero pensa em pular logo para o chão e pegar o notebook, ou o que sobrou dela, mas o pote é pesado e pula de mal jeito enroscando um pé no fio e prendendo o outro na perna da cadeira.
A queda foi em questão de segundos, e ela caiu em direção a mesa, jogou o pote de arroz para o alto, torceu o pé na cadeira, mas não teve tempo para gritar quando seu pescoço foi de encontro a quina da mesa, quebrando na mesma hora.

A monitor continuava ligado, agora piscando com imagens distorcidas e coloridas na tela. O pote do arroz se abriu e cobriu o piso marrom e gelado de branco…alguns grãos cobriram seu rosto escondendo os olhos e bocas abertos em uma expressão de panico, porém sem reflexo algum.

Pobre Sisi…

– Sisi? Você viu que horas são?…Sisi, acorda – gritava a mãe.
– Casa?…Quarto?…Mãe?…existem golens no céu também?…

Continuação da crônica na página Strange Times.