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Boas maldições

Não tem um fim satisfatório com uma mensagem reflexiva incrível.  Nem tem um fim. E precisa de fim? A vida não é um grande e eterno ciclo enquanto existimos? Tá bom, parei.

Minha casa é amaldiçoada. Repito isso mentalmente todos os dias. E como diria Edgar Allan Poe “Adoro”.
Gosto de pensar assim porque justifica todos os eventos estranhos (e são tantas histórias) que acontecem em todos os cantos desse lugar.

Não é a casa que eu nasci, mas chamei de lar a maior parte da minha vida.

Um dia decidi criar uma marca. Por sorte um livro me inspirou. Contava a história do misterioso, triste e bonito símbolo de uma borboleta negra, e era exatamente sob esse clima melancólico que me encontrava. Então foi.

E contrariando superstições. Afinal, por que uma borboleta negra é portadora do azar, mau agouro e responsável por todas as coisas erradas que acontecem na sua vida por imprudência sua? Por que uma borboleta amarela com detalhes em vermelho é sinal de alegria na casa quando descansa na sua porta?

Não é necessário um estudo profundo pra chegar a uma conclusão. Mas de qualquer forma sempre vale a reflexão.

Nos dias seguintes, borboletas me rodeavam pelo quintal e pousavam no meu ombro e joelhos quando aparecia para o meu banho de sol matinal. E aqui desconstruímos uma lenda. Vampiros tomam sol, sim, e são amigáveis.

Pouco tempo depois percebi 2 casulos do lado de fora do portão. Um em cada lado do portão. Logo correram boatos que era magia forte, a casa ia ceder, pessoas iriam adoecer. Mas nem.

E esperei ansiosa o segundo nascimento.

Ambas mariposas na verdade, pesquisei depois. O que de acordo com outras crenças traz ainda mais azar que a borboleta. Aonde vamos parar?

Num certo estágio percebi algo estranho, um dos casulos não parecia saudável. Desejei poder ajudar no nascimento, mesmo sabendo que elas devem fazer isso sozinhas. A vida delas é uma busca louca pela sobrevivência desde o início. Haja maturidade pra lidar.

Nasceram. E sozinhas. Eram duas mariposas consideradas feias e nojentas, com corpos deformados e mal conseguiam voar.

“Falei que era magia. ? Coisa ruim.” Clima estranho no ar. Estavam amaldiçoadas com minutos de vida.

Demoraram muito pra descolar as asas e a chuva apertou naquela época. Mas aguentaram firme. Até que uma delas veio finalmente pro jardim. Tinha impressão de que quando entrava no quintal voava ainda pior. Mas quando ia pro vizinho parecia estar no controle das asas. Mas a grama do vizinho é sempre mais verde.

Ela tinha as asas melhores, era independente e raramente a via. Aos poucos parecia bem melhor.

A outra não cedeu aos encantos do vizinho. E ficou comigo no jardim amaldiçoado onde plantas morrem com cuidados e adubo e vários insetos nascem deformados ou já sem vida.

Passamos algum tempo juntas. Ambas aberrações da natureza interagindo elegantemente. E ela não voava muito, pulava a maior parte do tempo, então fiz uma engenhoca. Prendi um galho grosso numa parte de uma casinha velha de hamster.

Vivia tentando me escalar. Sempre que eu sentava perto na mureta do jardim ela subia no galho e pulava pra alcançar meu braço. E elas tem olhos grandes, já reparou? Parece que te encaram.

Fazia carinho nela como se fosse meu hamster. Ela não vivia dentro de uma jaula, mas também não era livre. Como eu.

A chuva apertou demais. A ventania virou até a casinha com o galho. Quando cheguei ela já tinha ido embora, tragada pelo vendaval para um universo paralelo.

Fiquei na chuva chorando uns 10 minutos, segurando a droga do galho e apoiando na caixa do hamster que morreu misteriosamente numa madrugada sinistra, claro.

Chorei por causa da mariposa. Porque me sinto uma mariposa deformada quase todos os dias. Porque você também já se sentiu assim, ou vai se sentir amanhã. E porque coisas frágeis são vistas como dignas de pena desde sempre.

O horror e a liberdade da meditação

Dragão

Alguém sempre tenta me empurrar de um penhasco. Sempre. Já passou por isso?

Dessa vez não ofereci resistência. O lugar me lembra das cenas finais do filme Mama. Meu empurrador oficial sorri gentilmente, com um olhar amigo, sem mistério. Segura minhas mãos no ar, levantando meus braços e tenta dizer alguma coisa.

A noção de tempo espaço que conhecemos não existe. As coisas acontecem de forma diferente, quase um sonho lúcido. Um filme independente de baixíssimo orçamento, todo picotado.

Ele está atrás de mim. Estou de novo na ponta do penhasco. As vezes me vejo velha numa camisola branca, desta vez era jovem. As pedras pontudas me esperando lá embaixo, banhadas pelo mar. A imagem é tão linda que eu não me importo com o que vai acontecer. Por um momento aquele lugar me hipnotiza. E um arrepio percorre minha espinha e adormece as pontas dos dedos.

O coração bate num ritmo que é novo pra mim. Muito além do medo convencional. Como se eu já tivesse passado por isso muitas vezes. Não é atoa que sinto uma grande conexão com esse lugar fantasmagórico que poderia chamar de lar.

Mas ele não quer esperar pelo meu contemplamento. Não há tempo pra isso, nunca há. Ele tem pressa. A mensagem precisa ser enviada, e há muito para entender. Então, segurando meus ombros com força ele me joga violentamente do penhasco. Ainda assim, com amor.

A queda é longa, as vezes me observo em terceira pessoa, novamente velha. As mãozinhas enrugadas que eu sacudo com destreza, incrédula. Ainda em queda consigo me virar, agora jovem e de barriga pra cima, e o vejo sorrindo na ponta do meu penhasco. Feliz como uma criança que gosta de torturar e matar pequenos insetos. Um olhar maldoso, satisfeito e ao mesmo tempo de genuína felicidade. “Você compreende porque faço isso, não é?”

O primeiro sinal de que caí nas pedras veio do som da minha coluna trincando. Sinto os ossos quebrando em pedacinhos microscópicos, esfarelando. Minha mente extremamente desperta, consciente e livre da dor. Mas conectada ao corpo metafísico de uma forma intensa. Com olhos por todos os lados eu sinto e percebo cada parte do meu corpo profundamente, seja pele, carne, órgãos e ossos. A dor teimava em aparecer, mas era rapidamente bloqueada. É como pisar num pedaço de vidro usando coturno. Só que eu era o pedaço de vidro.

O ombro direito deslocado e as pernas quebradas empapadas numa poça de sangue sem fim, que as vezes era limpa pela água do mar que batia na pedra com violência. Diante disso só pensei em segurar o nariz sangrando enquanto estudava minha queda e olhava com horror e um certo fascínio o meu estado. Nada em mim doía.

Meu amigo me deixou um instante a sós comigo mesma, desfrutando daquele momento. E como num filme mal feito, me vi de repente em terceira pessoa novamente, flutuando e observando. Me transformei num amontoado de carne e ossos completamente desfigurada.

E caramba, como a vista é apaixonante, já comentei isso? Havia baleias e tubarões nadando juntos, pertinho da minha pedra.

Tomando consciência de seu dever, meu guardião surgiu bem na minha frente, de pé numa pedra, quase pela ponta dos pés. Se jogou do penhasco logo que a primeira vértebra quebrada perfurou meu pulmão e só ressurgiu naquele momento. O que me pareceu um século.

Diferente de mim ele continuava intacto. Vestindo uma camisola branca, me ofereceu sua mão e um sorriso. Quando peguei em sua mão meu pulso não estava quebrado. Levantei sem dificuldade, sem sangue, exceto do nariz, sem ossos esfarelados e em traje branco como o dele. Ficou evidente que não tinha controle de nada do que acontecia, vivia num filme já gravado. Caso contrário jamais usaria branco.

Ainda com o sorriso lindo, erótico, convidativo e dissimulado ele novamente abriu meus braços. Nos unimos formando uma cruz. Juntos, respirando o mesmo ar, sentindo as batidas do coração do outro. Encostou seu nariz junto ao meu, ainda ensanguentado. Fechou os olhos, sempre sorrindo. Quando finalmente nos olhamos de novo ele tinha asas. E eu pensei “tá brincando?”

Com um semblante sério e o olhar carregado de intensidade e compaixão, me disse: Você pode, sabe? Seja livre. Você deve, liberte-se, você consegue.

Então se pôs a voar como o homem pássaro sem o gavião.

Penas brancas surgiram nas minhas costas e braços, pra combinar com a vestimenta. Eu simplesmente me entreguei aquele momento. E voei. Brincava dando rasantes na água e tentava tocar os tubarões com a ponta dos dedos. Subia alto querendo pegar os floquinhos de nuvens pra comê-los como se fossem algodão doce.

Naquele momento experimentei um pouco da liberdade que meu amigo sugeriu. Entregue ao momento, eu oscilava entre a realidade, sentada no chão do quarto e voando por entre as nuvens de olhos fechados com longas asas de plumagem branca.

Quando finalmente firmei o pensamento, meu amigo intuitivamente pediu que eu voltasse para a pedra. Novamente nos abraçamos, ele se mostrou afetuoso e emocionado. Embora aqueles olhos transmitissem calma e uma infinita sabedoria.

Nos abraçamos, as assas se desmancharam delicadamente. As peninas flutuavam e buscavam seu lugar no horizonte, sumindo lentamente. O processo na verdade era uma metamorfose. Algo diferente estava prestes a substituí-las.

E para minha surpresa, minhas mãos se tornaram grossas e escamosas, com unhas enormes. Senti minha cauda balançando e ganhei novas asas, nada angelicais. Durante nosso abraço e a troca de bons sentimentos que tivemos, de maneira intensa, nos transfonamos juntos em dragões. Lindos, enormes e vermelhos dragões com caudas em formato de setas pontudas. Similar a ideia que temos dos dragões em filmes e livros.

Flutuamos, ainda unidos e nossas caudas se entrelaçaram.

Ele novamente implorou por liberdade, uma ultima vez. Pela minha liberdade.

 

Foi uma experiência e tanto, um misto de sensações que não podem ser descritas. Meditar não é bem como eu imaginava, as vezes pode ser uma viagem sem lsd ou cafeína. Mas veja, primeiro que isso ainda é novo pra mim. É uma jornada. Uma experiência tão pessoal quanto a quantidade de colheres que você gosta de preparar seu café. Ou seu gosto pelos subgêneros no terror (só pra fazer uma referência, que alias, diz muito sobre uma pessoa). Enfim. Caia de um penhasco também, ou não, mas entre em contato com o seu íntimo de alguma maneira.

Um sonho

tumblr_n0p9zxZEHy1qak3vpo1_1280Imagem: TsuruBride

Era quase 3 da manhã. Horário que os mortos fazem contato, os ratos correm pelo forro e os humanos normais já estão no 13º sono. Menos eu, ser agonizante das trevas cafeinadas da insônia cheia de culpa. Essa é a hora que vou deitar e torcer pra ser abraçada por Morfeu.

E fui. Tão logo fechei os olhos.

A noite virou dia. Eu estava no quarto, do qual nunca saí, mas de pé encarando minha cama, igual em atividade paranormal. Estava em transe.

Senti um calor no peito como quando a gente acende uma vela próximo ao corpo. E ouvi sons que vinham do quintal. A coisa me chamava, mas não queria que eu chegasse perto. Assim era complicado. Naquele instante estremeci, e eu tive certeza que era a minha vida, meu outro eu, a quem eu amava perdidamente, eternamente. Não sabia quem era. Eternidade é uma palavra engraçada e assustadora, quase um palavrão que a gente gostava de pronunciar quando criança pra sentir o poder da palavra. Dizer que será eterno é como limitar a sua existência a um determinado evento que durará para sempre, porque sim. Não faz sentido algum. Você sofrerá ou será feliz por toda a eternidade. Você perderá o seu outro eu e viverá dominada pela angustia durante as noites de tormenta. Amém. Dane-se seus planos.

Eu flutuei até o jardim, claro e molhado da chuva, sem sol, mas também sem nuvens negras. Os portões da minha casa abertos e a chave em cima do murinho molhado. Acho que ele estava me esperando há muito tempo. Talvez por isso seu tempo era tão curto.

Sonhos são tão profundos, tão intensos. Você não precisa falar para entender e sentir o que acontece a sua volta e o que querem te dizer. Nós geralmente captamos as coisas de uma forma completamente diferente, nossa percepção fica aguçada e nossa consciência se expande. Ele era a pessoa mais triste que já tinha visto em toda a minha vida.

Extremamente, miseravelmente infeliz. Um homem maduro no corpo de um rapaz mais jovem, que combinava perfeitamente com a minha faixa de idade, pouco mais de 18. E estava de pé olhando pra mim, tocando meus braços pedindo por um ultimo abraço, e chorando como uma criança que presenciava uma tragédia.

Não existe definição para a ligação que nós tínhamos. Nos conhecíamos há décadas, éramos parte um do outro, dividíamos uma alma, talvez a mesma carne e um profundo sentimento de admiração e respeito.

Eu fui tomada por toda essa sensação delirante. Senti o amor, o calor, o apego e a dor. Quando comecei a chorar a chuva voltou, fininha. Uma paz me invadiu, no meio daquela dor absurda e eu me sentia completa, no meu lugar. Ele não. Lamentava cada segundo que passava porque sabia que não sobraria mais tempo algum.

Ele queria que eu lembrasse, queria que eu o visse como ele me via. Mas eu só sabia sentir o que ele sentia.

Eu amei e chorei por uma vida inteira. Breves momentos de algo que nunca existiu e que me trouxe tanta paz e conforto, antes da completa solidão, que eu ainda me questiono sobre o real significado de algo tão intenso.

Nos despedimos. Apenas chorando abraçados, lamentado uma separação inexplicável, que ele se recusava a me dizer. Eu abraçava aquele corpo emprestado, mas que me trazia lembranças profundas daquele que eu conhecia melhor do que ninguém.

Eu já me considerava uma mulher, com meus 20 anos de sabedoria sobre nada da vida. Passei duas madrugadas ardendo em febre, acordando como se estivesse numa piscina. Na terceira noite ele voltou. Tudo ocorreu exatamente como antes.

Passamos o tempo todo tentando nos despedir. Eu soluçava de tanto chorar. Não era mais um sonho, aquela ligação metafísica se tornou real. E antes que eu abrisse os olhos inchados e molhados, escutei bem claro daqueles lábios: Não ficaremos juntos nunca mais. Não deixam.

Eu passei aproximadamente um mês forçando uma nova rotina de sono. Esperei vivenciar aquilo de novo. Por um tempo tudo perdeu a graça, como se tivesse terminado de ler a história mais triste que já fora escrita. E como pode imaginar, ele nunca mais apareceu.

Delírio de Capgras

Invasores de corpos, de 1956. "Cada um com sua vagem."

Invasores de corpos, de 1956. “Cada um com sua vagem.”

Num dia aparentemente comum você abre os olhos e vira pra lado dele na cama. A criatura dorme tranquilamente, como se nada a afetasse. Os olhos colados de remela, a boca escorrendo baba, a respiração tranquila. O ser está agora em sua forma mais pura e indefesa.

Enquanto você espera pacientemente até que ele abra os olhos e lhe dê bom dia, sua mente se enche de pensamentos obscuros.

“como ele pode ter mudado tanto?” “alguém realmente é capaz de mudar, afinal, ou apenas mostramos nossa verdade natureza?” “ele tem ideia do quanto me machuca?”

“somos como cebolas, camadas e camadas superficiais, protegendo um interior tão vasto e complexo de sentimentos que talvez uma vida só não seja suficiente pra entender”

“outra espinha no queixo? Cruzes. Deve ser o chocolate que comeu ontem…”

O vínculo, aquela espécie de cordão umbilical metafísico que os unia, rompeu. Aquela pessoa ao longo dos anos se tornou um completo estranho dentro do mesmo corpo.

Você ainda se relaciona com a amiga da época da escola que trocavam confidencias sem julgamentos. Hoje você fumaria um maço inteiro de cigarros pra evitar conversar. O olhar tão amigo tornou-se algo diferente, impenetrável. É impossível saber o que se passa naquela cabeça cheia de cabelo que apenas concorda com tudo o que você diz. Uma estranha que te faz hesitar até em contar como foi seu dia. Invadida pela sensação de que qualquer comentário é motivo para julgamentos da pior espécie. Aquele que segue apenas por um sinal de cabeça afirmativo e olhar atento, sem resposta ou qualquer sílaba emitida. Novamente, pensamentos obscuros invadem sua mente:

“nossa, que roupinha brega. Certeza que comprou em brechó. Não a conheço mais”

O delírio de Capgras é um distúrbio, na qual a pessoa acredita que alguém muito próximo a ela foi substituído por outra pessoa igual. Um clone impostor com propósitos desconhecidos. Geralmente aparece em pessoas que tenham algum dano cerebral ou problemas mentais, como esquizofrenia.

Invasores de Corpos, de 1956

Invasores de Corpos, de 1956. Impostor nascendo da ervilha maligna borbulhante.

O psiquiatra francês (adivinha, o Capgras), descobriu essa síndrome em mil novecentos e vinte e bolinha. Ele erroneamente associou isso a uma doença mental. Um delírio. Minha teoria é que Capgras nada mais é do que um tremendo choque de realidade, ao descobrir que a expectativa ou admiração em excesso que criamos por alguém pode sim ludibriar nossa percepção. E esse pedestal pode quebrar quando menos se espera, igual o pato de vidro que sua mãe deixava na pontinha da prateleira mais alta da estante, e que você um dia distraída bateu o braço. Porque culpar a si mesmo pela ilusão que criou, se pode delirar e acusar qualquer um de ser um extra terrestre invasor de corpos ou um metamorfo?

Saindo da caverna em 3,2,…

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Platão, homem intelectualizado pacas, criou um diálogo pra explicar seu ponto de vista sobre o conhecimento, de uma maneira dramática e filosófica, e num texto que se tornou atemporal, chamado Mito da Caverna.

O barato é o seguinte. Você está numa caverna, na verdade você nasceu lá. Acorrentado pelos pés e pescoço, junto com outras pessoas. A caverna tem um larga abertura para entrada do sol e umas brisas. Acontece que existe um muro entre aqueles que vivem na caverna e quem está lá fora. Os presos estão acorrentados de costas para o muro, ou seja, sua unica visão pelo resto da vida é a parede da caverna.

Mencionei que o wi-fi não pega na caverna? Sinal da tim então…

Mas o muro não bloqueia completamente a saída, ráa! A luz dos raios de sol durante o dia e fogueiras feitas à noite te dão uma visão de lá de fora, através de formas refletidas na parede da caverna. Você vê varias formas indefinidas se movimentando atrás do muro, as vezes escuta sons e, com o tempo aquilo se torna a sua realidade.

Você passou a vida daquele jeito, vendo as mesmas coisas, sem ao menos poder virar o rosto. Imagina o torcicolo, o dia que virar, quebra. Enfim, no seu cérebro as sombras são algo real, e não o reflexo de pessoas e objetos.

Agora, você foi escolhido pra sair da caverna. Retiram você de lá, te fazem camelar por aí, pegar sol na cara, o que é horrível, porque sua visão é noturna. Você passa frio, calor, leva chuva e sol na cara e é confundido com imagens coloridas e formas definidas que não lembram em nada aquelas sombras distorcidas que era acostumado.

Nesse dia você nasceu.

Qual o primeiro sentimento que te vem à cabeça? Se disser alegria você é muito sacana, por não ter pensado em seus amigos e na vida limitada que continuam vivendo lá na caverna. Então você se entristece. Por eles. Por você.

Alias, a consciência da verdade quase nunca acompanha felicidade. Quanto mais longe você enxerga, mais melancólico se torna. Igual quando você descobre que os vampiros românticos e jovens não existem. E se existissem, jamais te pediriam em casamento.

Foco na caverna.

Continuando a linha de pensamento do Platão. Imagine que então você é levado de volta pra caverna. Você não é mais o mesmo, nunca será. Lembra da frase “uma mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho original”?

Por consequência você trará novas informações, contestando tudo em que seus companheiros acreditam. A verdade é intimidadora, o conhecimento dá medo mesmo. Os outros presos não acreditam nas suas palavras, você é isolado deles. Enquanto passam o tempo que resta adivinhando quando e como as formas aparecerão na parede. Um se vangloriando mais que o outro por ser mais inteligente. E você assistindo aquela ingênua brincadeira de crianças, que são tudo na vida daquelas pessoas. Sem poder dizer mais nada e sofrendo ameaças de morte se insistir.

Platão deixa claro que as pessoas que vivem na caverna não querem sair dela. Não há sequer curiosidade. A vida é aquela bosta de parede tela plana sem HD e 3D, e pronto.

Mas e se eu disser que nós ainda vivemos na caverna? Com wi-fi, amém. Mas uma grande tela cheia de dados, porque dados nem sempre são informações. Primeira regra da informática.

Somos condicionados a acreditar e pior, aceitar como realidade aquelas sombras distorcidas de informações manipuladas por quem sabe da verdade, ou pensa que sabe. Não é vergonha nenhuma ser enganado, mesmo, levanta essa cabeça. Mas ative seus sensores, use como arma sua curiosidade que sempre gera dúvidas. O que nos leva ao famoso senso crítico. E não é brincadeira, ter senso crítico requer prática, habilidade. Somos capazes de configurar como nosso cérebro recebe e filtra informações. Isso requer treino, alimentação saudável e uma massa encefálica molinha, porém aberta a novos conhecimentos. Já que aquela velha opinião formada sobre tudo não nos representa mais.

E mesmo assim ainda somos todos suscetíveis a encarar dados aleatórios como informações verdadeiras.

Mas que é uma delícia sair da zona de conforto, vulgo caverna com paredinha escrota, ah isso é.