O horror e a liberdade da meditação

Dragão

Alguém sempre tenta me empurrar de um penhasco. Sempre. Já passou por isso?

Dessa vez não ofereci resistência. O lugar me lembra das cenas finais do filme Mama. Meu empurrador oficial sorri gentilmente, com um olhar amigo, sem mistério. Segura minhas mãos no ar, levantando meus braços e tenta dizer alguma coisa.

A noção de tempo espaço que conhecemos não existe. As coisas acontecem de forma diferente, quase um sonho lúcido. Um filme independente de baixíssimo orçamento, todo picotado.

Ele está atrás de mim. Estou de novo na ponta do penhasco. As vezes me vejo velha numa camisola branca, desta vez era jovem. As pedras pontudas me esperando lá embaixo, banhadas pelo mar. A imagem é tão linda que eu não me importo com o que vai acontecer. Por um momento aquele lugar me hipnotiza. E um arrepio percorre minha espinha e adormece as pontas dos dedos.

O coração bate num ritmo que é novo pra mim. Muito além do medo convencional. Como se eu já tivesse passado por isso muitas vezes. Não é atoa que sinto uma grande conexão com esse lugar fantasmagórico que poderia chamar de lar.

Mas ele não quer esperar pelo meu contemplamento. Não há tempo pra isso, nunca há. Ele tem pressa. A mensagem precisa ser enviada, e há muito para entender. Então, segurando meus ombros com força ele me joga violentamente do penhasco. Ainda assim, com amor.

A queda é longa, as vezes me observo em terceira pessoa, novamente velha. As mãozinhas enrugadas que eu sacudo com destreza, incrédula. Ainda em queda consigo me virar, agora jovem e de barriga pra cima, e o vejo sorrindo na ponta do meu penhasco. Feliz como uma criança que gosta de torturar e matar pequenos insetos. Um olhar maldoso, satisfeito e ao mesmo tempo de genuína felicidade. “Você compreende porque faço isso, não é?”

O primeiro sinal de que caí nas pedras veio do som da minha coluna trincando. Sinto os ossos quebrando em pedacinhos microscópicos, esfarelando. Minha mente extremamente desperta, consciente e livre da dor. Mas conectada ao corpo metafísico de uma forma intensa. Com olhos por todos os lados eu sinto e percebo cada parte do meu corpo profundamente, seja pele, carne, órgãos e ossos. A dor teimava em aparecer, mas era rapidamente bloqueada. É como pisar num pedaço de vidro usando coturno. Só que eu era o pedaço de vidro.

O ombro direito deslocado e as pernas quebradas empapadas numa poça de sangue sem fim, que as vezes era limpa pela água do mar que batia na pedra com violência. Diante disso só pensei em segurar o nariz sangrando enquanto estudava minha queda e olhava com horror e um certo fascínio o meu estado. Nada em mim doía.

Meu amigo me deixou um instante a sós comigo mesma, desfrutando daquele momento. E como num filme mal feito, me vi de repente em terceira pessoa novamente, flutuando e observando. Me transformei num amontoado de carne e ossos completamente desfigurada.

E caramba, como a vista é apaixonante, já comentei isso? Havia baleias e tubarões nadando juntos, pertinho da minha pedra.

Tomando consciência de seu dever, meu guardião surgiu bem na minha frente, de pé numa pedra, quase pela ponta dos pés. Se jogou do penhasco logo que a primeira vértebra quebrada perfurou meu pulmão e só ressurgiu naquele momento. O que me pareceu um século.

Diferente de mim ele continuava intacto. Vestindo uma camisola branca, me ofereceu sua mão e um sorriso. Quando peguei em sua mão meu pulso não estava quebrado. Levantei sem dificuldade, sem sangue, exceto do nariz, sem ossos esfarelados e em traje branco como o dele. Ficou evidente que não tinha controle de nada do que acontecia, vivia num filme já gravado. Caso contrário jamais usaria branco.

Ainda com o sorriso lindo, erótico, convidativo e dissimulado ele novamente abriu meus braços. Nos unimos formando uma cruz. Juntos, respirando o mesmo ar, sentindo as batidas do coração do outro. Encostou seu nariz junto ao meu, ainda ensanguentado. Fechou os olhos, sempre sorrindo. Quando finalmente nos olhamos de novo ele tinha asas. E eu pensei “tá brincando?”

Com um semblante sério e o olhar carregado de intensidade e compaixão, me disse: Você pode, sabe? Seja livre. Você deve, liberte-se, você consegue.

Então se pôs a voar como o homem pássaro sem o gavião.

Penas brancas surgiram nas minhas costas e braços, pra combinar com a vestimenta. Eu simplesmente me entreguei aquele momento. E voei. Brincava dando rasantes na água e tentava tocar os tubarões com a ponta dos dedos. Subia alto querendo pegar os floquinhos de nuvens pra comê-los como se fossem algodão doce.

Naquele momento experimentei um pouco da liberdade que meu amigo sugeriu. Entregue ao momento, eu oscilava entre a realidade, sentada no chão do quarto e voando por entre as nuvens de olhos fechados com longas asas de plumagem branca.

Quando finalmente firmei o pensamento, meu amigo intuitivamente pediu que eu voltasse para a pedra. Novamente nos abraçamos, ele se mostrou afetuoso e emocionado. Embora aqueles olhos transmitissem calma e uma infinita sabedoria.

Nos abraçamos, as assas se desmancharam delicadamente. As peninas flutuavam e buscavam seu lugar no horizonte, sumindo lentamente. O processo na verdade era uma metamorfose. Algo diferente estava prestes a substituí-las.

E para minha surpresa, minhas mãos se tornaram grossas e escamosas, com unhas enormes. Senti minha cauda balançando e ganhei novas asas, nada angelicais. Durante nosso abraço e a troca de bons sentimentos que tivemos, de maneira intensa, nos transfonamos juntos em dragões. Lindos, enormes e vermelhos dragões com caudas em formato de setas pontudas. Similar a ideia que temos dos dragões em filmes e livros.

Flutuamos, ainda unidos e nossas caudas se entrelaçaram.

Ele novamente implorou por liberdade, uma ultima vez. Pela minha liberdade.

 

Foi uma experiência e tanto, um misto de sensações que não podem ser descritas. Meditar não é bem como eu imaginava, as vezes pode ser uma viagem sem lsd ou cafeína. Mas veja, primeiro que isso ainda é novo pra mim. É uma jornada. Uma experiência tão pessoal quanto a quantidade de colheres que você gosta de preparar seu café. Ou seu gosto pelos subgêneros no terror (só pra fazer uma referência, que alias, diz muito sobre uma pessoa). Enfim. Caia de um penhasco também, ou não, mas entre em contato com o seu íntimo de alguma maneira.

Suicidas, de Raphael Montes

Suicidas, Raphael Montes

Suicidas me deu uma angustia terrível, uma sensação de desesperança, medo, nojo e loucura. Já tá querendo ler, né? Foram mais de 400 páginas lidas em poucas horas com intervalo para uma rápida soneca. E pra mim isso significa que o livro atingiu seu objetivo. Causar incomodo. Era o que eu procurava.

Buscamos sensações, vivenciar experiências por mais doentias que sejam através dos livros. Eu sei como é, não fique sem jeito. Alias, já leu Clive Barker?

Só que há outro incomodo também. Quando uma leitura carrega nos estereótipos.

A história apresenta personagens temperamentais, imaturos e frustrados/entediados. Combinação mortal, literalmente nesse caso. Jovens de classe média que de repente decidem morrer.

O livro explora a relação entre eles e mostra de maneira um pouco superficial, mas não menos interessante, porque tomaram essa decisão. Expondo suas fraquezas e mostrando o quanto são manipuláveis.

Aos poucos descobrimos como tudo aconteceu, ou parte do que houve, através do diário encontrado pela polícia no quarto de Lucas, o protagonista, poucos dias depois dos suicídios e um livro também escrito por ele narrando em tempo real os suicídios e encontrado no porão onde ocorreram as mortes.

Um ano depois a polícia ainda sem respostas e com algumas divergências de informações resolvem reunir as 7 mães dos 8 jovens que se suicidaram. A reunião é liderada pela delegada Diana, que lê cada capitulo escrito por Lucas sobre o dia dos suicídios, que ocorreu numa casa que Zak, melhor amigo de Lucas, e sua família passavam as férias. Cyrille’s House.

A cada capítulo, Diana espera conseguir a cooperação das mães, em meio ao panico e desespero de escutarem a narração dos eventos de Cyrille’s House sobre seus filhos,  para que juntas possam chegar em alguma pista útil do que realmente aconteceu. Já que esse livro nunca tinha sido relevado pela polícia, nem para as mães.

Como Lucas é o único elo que temos com os jovens e suas motivações, percebemos muito da sua personalidade. Não houve nenhuma empatia da minha parte pelos personagens, muito menos Lucas, que busca camuflar seu desvio de caráter com pequenos gestos e falsas boas ações. Embora muita coisa seja compreendida no final.

Entre os jovens temos Ritinha que é, sem meias palavras, a vagabunda que sai com todo mundo, exceto com o garoto que gosta dela. E a todo momento o livro tentar apresentar justificavas para odiá-la e desprezá-la por isso, já que seu comportamento não é dos melhores. Waléria com W está numa categoria um pouco diferente unicamente por estar acima do peso, mas igualmente ridicularizada. Maria João é a garota, que embora descrita com aparência e modos masculinos, sonha em casar com um homem rico e rejeita o protagonista por não ter dinheiro. Ou pelo menos é o que ele acha, mas vai alguém discordar.

Zak, o melhor amigo de Lucas, é um rapaz muito bonito e que se aproveita disso. Também por ser rico qualquer mulher se interessa por ele. Algumas confissões perturbadoras de Zak são levadas com calma, eu diria, por Lucas, que aparentemente é o cdf da turma, sem atrativos físicos e dinheiro, portanto, solteiro. Ele na verdade é uma versão intelectualizada do garotão pegador, Zak. Bom, e algo mais. E continua a afirmar e destacar o quanto as personagens femininas são loucas e desequilibradas, interesseiras e meros corpos em movimento no planeta, o tempo todo. Mesmo diante de situações absurdamente absurdas.

O suicídio é um tema difícil de abordar, achei que a história e as motivações foram bem construídas. Até porque, sempre que ouvimos falar de alguém que tirou a própria vida, tentamos buscar uma resposta que faça sentido pra nós, afim de racionalizar essa loucura, quando na verdade sentimentos são tão instáveis e manipuláveis que não há uma explicação aceitável pra ninguém. Embora não seja tão difícil compreender os motivos que levam alguém a se autodestruir.

Ao final da leitura me peguei pensando em tudo o que aconteceu com aqueles jovens no porão da Cyrille’s House. Eu não me consideraria fan de terror/horror se não apreciasse leituras em que os sentimentos mais extremos ou doentios são explorados. Embora o livro esteja na categoria policial. Nós sabemos muito bem do que somos capazes, generalizando, claro. Não se culpe por ter arrancado as tripas do seu vizinho que gostava de maltratar animais, ele vai entender.

Mas preocupa e incomoda, aquele incomodo ruim que falei no começo, uma leitura que cultiva o ódio por meio de justificativas, ou reforce o próprio pensamento que muitos já tem enraizados. E é tudo tão sutil, tão perfeitamente moldado dentro das histórias que num olhar superficial pelas páginas pode não ser percebido. Mas a mensagem está lá. Mesmo que escrita sem essa intenção. É cansativo.

E ser crítico nesse sentido é muito bom, te torna um chato a partir do momento que você percebe como somos preconceituosos por natureza, mas é bom. Humaniza. Você passa a questionar o própria história, o autor, outras opiniões e olha com mais carinho e respeito para o próximo, de verdade.

Alias, Suicidas aborda outros temas interessantes de forma assustadoramente cruel e realista. Estou num emaranhado de sensações e questionamentos, que há muito me acompanham. Encare apenas como uma conversa entre nós, e tire sempre suas conclusões.

De todo modo foi uma boa leitura, com reviravoltas espantosas e um ritmo que tira o fôlego. Já estou buscando outros livros do autor. Tentei esconder muitos outros segredos e surpresas que te esperam. E eu torço, como sempre torci, para que cada vez mais nos preocupemos com aquilo que passamos através da escrita. Histórias não são e nunca serão apenas uma forma de entretenimento, elas tem o poder de nos instigar, moldar, e também reafirmar ideias que não deveriam nos pertencer mais e alimentar um ciclo em que pessoas são julgadas e odiadas a todo momento enquanto buscam prazer e refúgio nesse lugar tão hostil que vivemos.

Mais:

Outro livro que aborda suicídio (e bullying), e talvez você goste também como eu gostei é Os 13 Porquês

E quem tem skoob, chega chegando.  :)

 

Blogagem Coletiva: livros que marcaram a infância

É estranho lembrar da literatura na minha infância.

Passei boa parte dessa fase assistindo filmes pesados. O que explica meu jeito perturbado. No mundo real, não conseguia acompanhar meus pensamentos, nem o que os professores falavam e, olhar pra um livro muito tempo (5 minutos) era extremamente angustiante pra mim. Ainda é uma tarefa árdua as vezes.

De um modo reservado, sempre buscava maneiras de explorar até o limite da imaginação, me desconectar da realidade que me massacrava, e explorar a capacidade de sentir alguma coisa diferente, medo principalmente. Logo, filmes de terror faziam parte da minha vida. E era o único momento em que eu conseguia me concentrar em alguma coisa até o fim.

Por sorte, na escola éramos todos obrigados a ler os livros da série vaga-lume. E descobri que livros também eram assustadores e misteriosos, como os filmes. Até melhor. Uma descoberta óbvia, mas que me impressionou demais. Eu não sabia expressar essa alegria, mas era um momento lindo. Quando acordava tinha o hábito de revisar toda a história que tinha lido no dia anterior. E sempre preenchia aquele questionário no final dos livros. Aquilo era a prova de que eu consegui me concentrar e entender um livro. Eu passava tanto tempo sonhando acordada que precisa de uma prova das minhas conquistas, pra ter certeza que não foi imaginação. Como os questionamentos sobre a matrix. Você sabe que isso nem é real, certo?

 

Mistério dos cinco estrelasO Mistério do Cinco Estrelas, do Marcos Rey, foi o primeiro livro que li de verdade. E só foi possível porque a história me atraiu e o desenvolvimento foi ótimo. E claro, questionário no fim do livro preenchido com sucesso. Ainda tenho como prova da minha iniciação na literatura.

 

 

 

 

dráculaDrácula, Bram Stoker
Uma das leituras que me impressionou pelo motivo de: não entendi porra nenhuma. Com certeza as versões mais antigas do Drácula são um desafio pra interpretar, ainda mais pra uma criança. Mas eu tinha referências do cinema pra me ajudar. E cismei que precisava saber o que ia acontecer com Jonathan Harker naquela mansão de atmosfera pesada e seu excêntrico anfitrião. E reli algumas vezes até entender e se tornar meu favorito por muitos anos.

 

 

Sonho de uma noite de verãoSonho de uma noite de verão, William Shakespeare
Fui enfeitiçada e me perdi naquela floresta mágica. Mergulhei fundo nessa história e me tornei uma das personagens. Esse é um dos meus favoritos desde pequena. Tive sonhos com ele e muita inspiração pras aulas de educação artística. E material pra viajar na aula de educação física que eu me recusava a fazer.

 

 

 

13anos3Frankenstein, Mary Shelley. Deixa eu contar. Passado o choque da leitura, que me fez chorar, eu queria o Frankenstein como personagem do Mortal Kombat. Foi uma leitura emocionante. Li várias edições diferentes. Cada uma retrata nosso amigo costurado de uma forma diferente. Algumas apelam mais para seu lado humano, o que justificava qualquer ato de crueldade da parte dele. Uma criança gigante. Mas o que Frankenstein é, ora bolas, senão humano como você e eu? Curioso como precisava lembrar a todo momento que ele não era e nunca foi um monstro. Lembro que fiquei extremamente comovida. Ao mesmo tempo me fez refletir muito, de acordo com o que eu entendia, sobre a bondade/maldade humana.

 

Esses foram alguns dos que fizeram a diferença e me proporcionaram momentos incríveis. A ideia da blogagem coletiva é da Sybylla. Aproveita que está no clima e leia o post dela também, só clicar aqui.

Outros blogueiros entram nessa também, é só buscar no twitter pela tag #BCLivrosdaInfância

 

O sonho da Sultana

Um dia (isso foi há muito tempo), conversei com um amigo sobre feminismo. Nós tínhamos ideias parecidas. Não gostava nem dessa palavra. Pesada, parecia querer impor algo à sociedade. Uma tentativa de gerar medo e incitar o ódio, criando confusão desnecessária. Resumindo, um termo quase ofensivo. Será?

Brinco que esse é o ponto chave para a transformação. É quando você chega a uma determinada conclusão ao longo da experiência da observação, que fazemos mesmo quando não sabemos que fazemos, sobre como algo reflete nas pessoas a sua volta. E então, dessa conclusão, você a toma como uma verdade para si mesmo.

E se tratando de relações humanas, dificilmente um pensamento que chega a uma conclusão fácil, comoda, que acabe com qualquer questionamento, significa que estamos no caminho certo.

Abandonar padrões, digamos obsoletos, de pensamento ainda é a principal causa de ódio entre nós. E não é pra menos, contestar tudo aquilo que você acredita se colocando no lugar do outro, muda a forma como você vê a vida. Não é uma tarefa fácil, muito menos prazerosa. Mas liberta. Humaniza.

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O sonho da Sultana é um conto de ficção científica feminista, escrito pela muçulmana Roquia Sakhawat Hussain, feminista e ativista dos direitos das mulheres. Publicado em 1905, veja só. A tradução do conto é uma iniciativa do projeto Universo Desconstruído, esse mesmo que está pensando. Participei da coletânea de estréia do projeto. Aline e Sybylla o traduziram e editaram, e transformaram num ebook disponibilizado gratuitamente.

No conto, Roquia brinca com a inversão de papéis entre homens e mulheres. Através de um sonho ela descobre um mundo incrível, com tecnologia, utilização dos recursos do meio ambiente de forma extremamente inteligente, educação para mulheres, mas, ainda longe de ser perfeito.

Ao que parece, O sonho da Sultana foi o primeiro conto de ficção científica feminista. Quando terminei a leitura, minha mente voou longe. Fiquei me perguntando o grau de instrução de Roquia, e a imaginava escrevendo este pequeno conto às escondidas, após o marido sair de casa, ou a permitir se entreter rabiscando papéis.

Ela teve o que por enquanto chamamos de sorte. Veio de uma família que pertencia a alta sociedade. Teve educação desde pequena, que lhe proporcionou ferramentas para enxergar o mundo como realmente é, e assim, poder questioná-lo.

Há mais sobre ela na biografia que faz parte do ebook. Que alias, percebe-se que foi organizado com muito cuidado e carinho. O interessante do Universo Desconstruído são essas doses homeopáticas que querem justamente mexer um pouquinho com cada um de nós. Gerar discussão e reflexão através de uma forma de entretenimento. O que eu acredito que seja também o princípio da boa educação.


Corre lá pra baixar o e-book, é grátis.

Um sonho

tumblr_n0p9zxZEHy1qak3vpo1_1280Imagem: TsuruBride

Era quase 3 da manhã. Horário que os mortos fazem contato, os ratos correm pelo forro e os humanos normais já estão no 13º sono. Menos eu, ser agonizante das trevas cafeinadas da insônia cheia de culpa. Essa é a hora que vou deitar e torcer pra ser abraçada por Morfeu.

E fui. Tão logo fechei os olhos.

A noite virou dia. Eu estava no quarto, do qual nunca saí, mas de pé encarando minha cama, igual em atividade paranormal. Estava em transe.

Senti um calor no peito como quando a gente acende uma vela próximo ao corpo. E ouvi sons que vinham do quintal. A coisa me chamava, mas não queria que eu chegasse perto. Assim era complicado. Naquele instante estremeci, e eu tive certeza que era a minha vida, meu outro eu, a quem eu amava perdidamente, eternamente. Não sabia quem era. Eternidade é uma palavra engraçada e assustadora, quase um palavrão que a gente gostava de pronunciar quando criança pra sentir o poder da palavra. Dizer que será eterno é como limitar a sua existência a um determinado evento que durará para sempre, porque sim. Não faz sentido algum. Você sofrerá ou será feliz por toda a eternidade. Você perderá o seu outro eu e viverá dominada pela angustia durante as noites de tormenta. Amém. Dane-se seus planos.

Eu flutuei até o jardim, claro e molhado da chuva, sem sol, mas também sem nuvens negras. Os portões da minha casa abertos e a chave em cima do murinho molhado. Acho que ele estava me esperando há muito tempo. Talvez por isso seu tempo era tão curto.

Sonhos são tão profundos, tão intensos. Você não precisa falar para entender e sentir o que acontece a sua volta e o que querem te dizer. Nós geralmente captamos as coisas de uma forma completamente diferente, nossa percepção fica aguçada e nossa consciência se expande. Ele era a pessoa mais triste que já tinha visto em toda a minha vida.

Extremamente, miseravelmente infeliz. Um homem maduro no corpo de um rapaz mais jovem, que combinava perfeitamente com a minha faixa de idade, pouco mais de 18. E estava de pé olhando pra mim, tocando meus braços pedindo por um ultimo abraço, e chorando como uma criança que presenciava uma tragédia.

Não existe definição para a ligação que nós tínhamos. Nos conhecíamos há décadas, éramos parte um do outro, dividíamos uma alma, talvez a mesma carne e um profundo sentimento de admiração e respeito.

Eu fui tomada por toda essa sensação delirante. Senti o amor, o calor, o apego e a dor. Quando comecei a chorar a chuva voltou, fininha. Uma paz me invadiu, no meio daquela dor absurda e eu me sentia completa, no meu lugar. Ele não. Lamentava cada segundo que passava porque sabia que não sobraria mais tempo algum.

Ele queria que eu lembrasse, queria que eu o visse como ele me via. Mas eu só sabia sentir o que ele sentia.

Eu amei e chorei por uma vida inteira. Breves momentos de algo que nunca existiu e que me trouxe tanta paz e conforto, antes da completa solidão, que eu ainda me questiono sobre o real significado de algo tão intenso.

Nos despedimos. Apenas chorando abraçados, lamentado uma separação inexplicável, que ele se recusava a me dizer. Eu abraçava aquele corpo emprestado, mas que me trazia lembranças profundas daquele que eu conhecia melhor do que ninguém.

Eu já me considerava uma mulher, com meus 20 anos de sabedoria sobre nada da vida. Passei duas madrugadas ardendo em febre, acordando como se estivesse numa piscina. Na terceira noite ele voltou. Tudo ocorreu exatamente como antes.

Passamos o tempo todo tentando nos despedir. Eu soluçava de tanto chorar. Não era mais um sonho, aquela ligação metafísica se tornou real. E antes que eu abrisse os olhos inchados e molhados, escutei bem claro daqueles lábios: Não ficaremos juntos nunca mais. Não deixam.

Eu passei aproximadamente um mês forçando uma nova rotina de sono. Esperei vivenciar aquilo de novo. Por um tempo tudo perdeu a graça, como se tivesse terminado de ler a história mais triste que já fora escrita. E como pode imaginar, ele nunca mais apareceu.